terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O natal, segundo a minoria.

já era quase natal. época essa que ele não sabia muito como viver. as pessoas de sua enorme família sempre se reuniam. e fingiam ser grandes amigos. mas tudo não passava de uma noite. que pra ele demorava tanto a passar. não entendia por quê. mas gostava mais de ficar sozinho. já era homem feito. ajudava a mãe. que era solteira e tinha um bar. o pai dele tinha morrido. era álcoolatra. e certo dia não acordou mais da ressaca. em vez de sentir raiva do mundo. ele se fechou. pouco falava. parou de estudar. e ás vezes usava alguma ajuda ílicita para se sentir melhor. tinha poucos amigos. e seu lugar preferido era o quarto. certa vez até namorou uma menina. mas como pouco se falavam. tudo acabou. não tinha muitas expectativas.nem sequer alguns desejos. disse pra mãe. que na noite de natal. ficaria só um pouco na casa da tia. depois daria uma volta. sozinho. a mãe meio sem saber o que fazer. mexeu a cabeça em sinal de confirmação. era tão confuso tudo o que ele pensava. ninguém entendia. nem ele mesmo. já tinha pensado até em fugir. mas a mãe já era tão sozinha. que decidiu ficar. mesmo que não tivessem grandes laços. nem mativessem grandes diálogos. ligou o som alto. no rádio tocava libertines. e ele deitado na cama. olhava para o teto. que já tinha a tinta descascada.
- Não sei por que algumas pessoas vêem tanta graça na vida. os dias são tão iguais. e as pessoas tão vazias. ninguém se importa com nada. a hipocrisia parece generalizada. e depois. tudo se acaba. parece brincadeira. mas é tão real. essa imensidão. solitária. como eu. acho que no fundo não estou só. o time da solidão. parece tão completo.- murmurou ele.
e num salto. saiu do quarto. foi até o corredor da casa onde morava. pegou o capacete. e ligou a moto. andaria sem rumo. e encontraria alguém. depois de voltas. e revoltas. desceu em um bar. que não era o de sua mãe. pediu uma cerveja. e parou. olhou para uma garota. ali perto. que bebia sozinha. assim como ele. tomou coragem. respirou. e foi até ela.
-Olá. parece tão sozinha que vim amenizar a situação, posso?- disse ele ocupando a cadeira ao lado.
-Pode sim, não acho que vá fazer muita diferença, mas pode tentar.- disse ela levando os olhos para baixo.
-Por que diz isso? Pareço ser tão chato?
-Não, só acho que você não é de muita conversa também.
-É no fundo você tem razão, garota. Não tenho muito o que dizer, não vejo muita graça em nada, e também sou como você, sozinho.
-E quem disse que sou sozinha?!- disse ela voltando a olhar para ele.
-É assim que está, não é?!
-Ahhh...não. É que estou visitando parte de minha família, esperando o natal. Mas não sou daqui, por isso estou sozinha. Não conheço ninguém, além dos meus tios.
-Ah, o natal, tinha até me esquecido, por que você lembrou?- disse ele, murchando os olhos e o sorriso.
-O natal é legal, apesar da hipocrisia. Todo mundo, ou pelo menos os que têm sorte, comem bem, bebem bastante. Para mim, não existe grandes problemas.-sorriu ela.
-Porque é egoista. Todo mundo finge ser amigo, mesmo que não se importe. Depois, é a minoria privelegiada que tem ceia, e dá boas risadas no meio de toda essa falsidade.
-Você faz parte de quê?
-Minoria, eu acho.- disse ele tomando o último gole da cerveja.
-Ah tá! Então não reclama, aproveita. Você já vai embora?!
-Acho que sim, vou dar mais uma volta. Quer ir comigo?
-Acho que vou sim. Mas antes me diga seu nome.
-Marco, e o seu?
-Rachel. Pronto, agora que você não é mais um estranho, podemos sair juntos.
Os dois se levantaram, se olharam e caminharam até a porta. Sem muita coisa pra falar, e sem saber o rumo que tomariam, foram embora. E voltariam logo. assim que o natal chegasse.

sábado, 20 de dezembro de 2008

um dia na minha vida, duas décadas depois.


Há vinte anos átras. minha mãe sem querer. esqueçeu de tomar o remédio. meu irmão tinha apenas oito meses. foi aí que minha história começou. depois eu cresci. sempre fui boa aluna. apesar de falar muito. nunca desapontei meus pais. e fiz até uma tatuagem em homenagem à eles. dizem que sou menina boa. mas por outro lado sou "muleca". estou sempre rindo. e me divertindo. já consegui quebrar os dois braços. já escalei muro. já guardei segredos. e meu melhor amigo é meu irmão. quando era pequena queria voar. e assistia o filme do peter pan todo dia antes de ir na escola. inclusive me estabanei pulando do sofá. em um belo dia que tive certeza que sairia voando. já achei que tinha poderes mágicos. mas na verdade não tinha. pareço muito com minha mãe. mas fico grudada no meu pai. este que é meu herói desde sempre. já morei em São Paulo. mas meus pais foram me buscar. e apesar de ser meu grande sonho estudar lá. voltei para o interior. e comecei a faculdade por aqui mesmo. quase fiz direito por ser o sonho dos meus pais. deixei de crescer faz um tempo. por isso dizem que sou como uma bonequinha. pequenininha. e quase intocável. nunca liguei pra dinheiro. nem pra posições sociais. já fui punk. hippies. e socialista. também já fiz protestos. e saí no jornal. hoje em dia acho que já sou gente grande. mas ainda peço colo pros meus pais. um dia vou fazer um documentário. e também comprar um jipe. talvez consiga fazer minha grande viagem. que engloba várias partes do mundo. sonho em casar e ter filhos. amo escrever e comer chocolate. talvez poucos me conheçam. mas dizem que sou menina boa. deve ser pela educação conservadora que tive. já pensei que vim de outro mundo por ser diferente. depois percebi que os tempos mudaram. devo eu ser um ser ultrapassado. prefiro pensar que não. apesar de completar hoje duas décadas. já me sinto tão gente grande. e apesar de ter muito o que viver. acho que já vivi quase todas as emoções. fico por aqui. aceito os parabéns. afinal de contas. hoje é meu aniversário...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A espera

estava sentada naquela mesa desde as oito da manhã. fazia cálculos absolutos. que pareciam absurdos. e desnecessários. mesmo que fizesse tanta diferença. queria mudar de emprego. de profissão. de país. de planeta. mas sabia não poder. não agora que esperava pelo primeiro filho. se chamaria Gabriel. sempre quis ter um filho. e se fosse homem. se chamaria Gabriel. gostava da musicalidade do nome. não que achasse especial. ou tivesse algum significado importante. era meramente um gosto próprio. o pai da criança estava em alguma sala. de algum prédio. fazendo as mesmas contas imbecis que ela. que vida era a dela. e a dele também. haviam se casado cedo. quando estavam na faculdade. ela tinha 19. e ele 25. passados doze anos. perdeu a química de corpo. ou a cor.eram bons amigos. mas logo apareceu a barriga. num descuido de sábado a noite. tinha sido especial. ficaram tanto tempo sem nem se olhar muito bem. até que ele a procurou. e ela se rendeu. e pronto. foi assim que aconteceu. sobre o filho. no começo ele estranhou. pensou. repensou. depois aceitou. renegou. e aceitou de novo.
-Não estamos pronto para um filho, e você sabe disso.
-Essas coisas acontecem.
-Pois não deveria. Onde você estava com a cabeça?
-No mesmo lugar que estava a sua. Alias eu fiz sozinha, o filho é meu.
Ele se calou. e nunca mais disse nada a respeito. afinal era dele também. ela já estava de sete meses. e com um barrigão. entraria de férias em alguns dias. ficaria em casa. com os pés inchados pra cima. e matado as vontades que ela inventava. às vezes cantava pro filho. e falava em outras línguas com ele. certa vez contou até história pra ele. era estranho. ser dois em um. já tinha estado nos braços do marido. e disseram ser um só. mas agora era real. tinha um serzinho ali. que comia tudo o que ela comia. bebia tudo o que ela bebia. ouvia tudo o que ela ouvia. e sentia tudo que ela sentia. era bom ser uma coisa só. amar. isso sim era amar. mal sabia qual a carinha que ele teria. tampouco se andaria logo. ou qual seria sua primeira palavra. e mesmo assim o amava. via sentido nas coisas por causa dele. porque ele faria parte daquelas coisas. agora já não queria mais se mudar. ou parar. percebeu que queria ficar ali. ao lado dele. com ele. por ele. era uma futura mãe. olhou para a fotografia ali. em cima da mesa dela. estava com a os pais. esboçou um sorriso. e pensou que gostaria de ser pelo menos parte do que eles foram. pra ela. segurou a foto nas mãos. sentiu saudades. depois colocou onde estava antes. e continuou as contas absolutas...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Jambo, a menina mulher.

Tinha apenas treze anos quando o conheceu. ela era morena. ele tinha olhos verdes como esmeralda. ficava ali no bar. que dava bem na porta da casa dela. se olhavam em segredo. e se desejavam como homem e mulher.
-Meu nome é Silvio, e o seu pequena?
-Meu nome é Claúdia, mas me chamam de jambo, por causa da minha cor.
Agora ele esperava por ela todos os dias as quatro da tarde. deixava tudo de lado. e ela dizendo que ia colher jabuticaba. ia vê-lo todos os dias.
-Vamos fugir?
-Não posso, minha mãe não me perdoaria.
Depois de um mês. aceitou o convite. foram para uma cidade vizinha. ele sorria de felicidade. ela também. tinha guardado um segredo. por desejo de ter ele. ou por medo de perdê-lo.
-Estou grávida.
foi essa a frase que disse durante o almoço de terça-feira. ele se calou durante alguns minutos. depois se animou. podia ser menino. pra jogar bola com ele. ou menina. pra ele cuidar. gostava de jambo. era mais velho. conhecia mais a vida. mas também precisava contar uma coisa à ela. apesar de tudo. ela merecia saber.
-Jambo, precisamos conversar.
-Pode ser depois do almoço, estou tão atrapalhada.
-Não pode. Tem que ser agora.
ela se virou meio torta. olhou para os olhos dele. e percebeu que havia algo errado. talvez tivesse deixado a casa suja. ou não passara bem a roupa de trabalho dele.
-Sente-se aqui do meu lado.- disse ele com a voz rouca e baixa.
-Fala logo, homem. Está me deixando angustiada.- falou ela, já nervosa.
-Você sabe que te amo.- sussurou ele, enquanto segurava as pequenas mãos da menina.-mas queria que soubesse que tive um grande amor, desses que derrubam a gente, e fazem nossas pernas tremerem. Não sei se você merecia saber, mas precisava dizer.
Ela se calou. não tinha muito respostas para uma dor tão grande. deixara a mãe. fugira com ele para um lugar estranho. e agora carregava um filho. que não era só dela. sentia por ele. mais do que as pernas bambas. fazia planos. amava ele.
-Quero que fique ao meu lado, apenas se desejar. Sei que te trouxe comigo. Te roubei da sua casa. e Você ainda é tão menina. Não acho que fiz mal. porque no fundo. gosto de você. me desculpa se menti. mas talvez você ainda possa me perdoar.
-Se eu for embora, ou te fizer sair daqui. É com ela que você vai viver, não é?
-É sim, se você me deixar, é nos braços dela que dormirei.
-Então eu fico. Por dois motivos: primeiro porque te amo, e num é uma paixonite, entreguei minha vida em suas mãos. Segundo, porque você prometeu que seria só meu, e vai ser.
ela se levantou. e fingiu que aquela conversa não havia existido. enquanto terminava de fritar os ovos. chorava como uma criança. porque ainda era menina. tinha quase quatorze anos. e pouco sabia das peripécias da vida. fechou os olhos. tentando fazer qas lágrimas pararem de cair. ele sentado sofá. com as mãos na cabeça. também sentia uma dor. certamente não era como dela. mas era dele. os sentimentos confusos. e a incerteza. podia ir embora. átras do que pensava ser felicidade. mas e ela. o que seria da menina jambo. se ele saísse dali. tinha o pequeno menino ou menina. pensou. repensou. não pensou. e ficou. o almoço virou janta. e os dois nada disseram. a noite chegou. e na cama. mal se tocaram. como podia ela esquecer. e ele sobreviver.
-Te amo Silvio.- disse ela antes de fechar os olhos naquela noite.
calado. ele quis dizer que também a amava. mas não disse. não deixaria ela. porque ela carregava uma parte dele. os anos passaram. e ele estava ali. ainda procurando a felicidade. de uma paixão que não vivera. ela. a menina. que agora já era mulher. e mãe de três meninas. nunca esqueceu. mas perdoou. e amou. o homem que a levou embora. numa tarde de segunda-feira. não porque tivesse medo. mas porque sentia por ele. mais do as pernas moles. e menos do que ódio. coisa essa que não conseguia explicar. mas vivia todos os dias...

sábado, 6 de dezembro de 2008

O rei!

Era o sétimo filho de João e Maria. não bastasse isso. tinha vindo fora de época. cresceu sozinho. sem muitos amigos. dentro do barraco de madeira. na periferia do Rio de Janeiro. Estudou só até a quarta série. e logo começou a trabalhar. a mãe que era cozinheira de uma família rica. e o pai que era porteiro de um prédio no Leblon. nem percebiam no que ele se transformava. no meio do seu novo emprego. era conhecido como bolinha. não porque fosse gordo. mas por ser tão magro e ter pernas finas. avião. era esse o seu cargo. subia aqueles degraus turvos dia e noite. ganhava alguns trocados. depois dava um tapa de noite. nunca fora pego. e sempre quis ser como o chefe. esse era moreno. alto. e forte. conhecido pelo nome de O grande. era temido. e tinha algumas mulheres.
- Pô Grande, quero ser assim, como você!
-Tá querendo me tirar da parada muleque?
-Não... não...sou brother, mano!
Foi assim que ele cresceu. sem muitos sonhos. mas com um projeto. seria o chefe um dia. conhecia todos os rivais. e sentia ódio deles. mesmo sem nunca ter visto nenhum de perto.
alguns anos passados. agora bolinha já era segurança do chefe. cuidava dos embaladores. quem não ficasse esperto. tomava uma bala. na cabeça. ele parecia não ser gente. não tinha pena. não tinha laços. tinha algumas paixonites. mas nada demais. tivera quatro filhas. antes mesmo de completar vinte e um. a mãe agora aposentada. pedia. implorava. para que ele procurasse emprego. assinasse carteira. saisse daquela vida. mas ele era bom naquilo. não sabia fazer mais nada. ou pelo menos acreditava nisso.
- Bolinha, te prepara, amanhã vai ter festa no morro.
-Sussa brother...eu apareço.
a festa não era funk. nem envolvia pessoas felizes. dançando e cantando. falavam de tomar o ponto da esquina de baixo. que era usado para a venda de drogas. e estava tomado pelos alemães. seria uma guerra. perigosa. e estava sendo planejada há algumas semanas. o horário marcado era às onze. e Bolinha. começou a se preparar. primeiro comeu um prato de arroz feijão. com um grande ovo em cima. depois colocou a bermuda azul já desgastada. pegou Mariana. sua arma de estimação. colocou um boné vermelho. e foi. cheio de si. sem medo. nem receio. seria rei naquela noite. comandaria tudo.
o tiroteio começou na hora marcada. as pessoas que estavam no bar do mineiro. que era na frente da tal esquina. começaram a correr e se abaixar. os alemães não tiveram muita reação. foram pegos de surpresa. e estavam em número menor. a conquista foi mais fácil do que havia imaginado. logo que percebeu a desistência do adversário. subiu na mesa. e gritou que era rei.
-O ponto é nosso, seus merda!!!
no outro dia. as pessoas desviavam dele no morro. abaixavam a cabeça. mostravam respeito. era rei. tinha conseguido. com apenas vinte anos. era o maior dos homens no morro. à noite foi até o bar do zé padoca. pediu uma cerveja. e contava piadas para os companheiros. quando ouviu um barulho. que pareciam tiros. levantou. olhou. e pediu para que se preparassem. ele iria ver o que estava acontecendo. desceu pelas vielas. como um fantasma. conhecia cada canto daqueles becos. de repente. em uma das esquinas. viu os alemão.
-Viados... catando meus laranja!
num salto para o lado. deu o primeiro tiro. e correu para outro canto.estavam em muitos. parecia um exército. e ele. o rei. sozinho.
-Ahhh seu merda- disse o traficante do morro vizinho- num treme não. tu vai morrer viado.
-errou. seu merda. quem vai morrer é você!- disse bolinha.
e num jingado de corpo. se virou e atirou. acertou a perna do inimigo. os outros meteram bala nele. tomou mais de quarenta tiros. morreu ali. com sua companheira inseparável Mariana. os alemão sumiram. e quando os homens de Bolinha chegaram. pegaram o corpo dele. carregaram até a porta de Maria e João. tocaram a campainha. já passava das onze. ficaram esperando alguém sair.
-Meu Deus...-levou as mãos na boca. e amoleceu as pernas. Maria não queria acreditar que era Marcelo. o bolinha.
-Desculpa. não pudemos evitar. aqui está mariana- disse de cabeça baixa o Grande.- ele morreu como herói do morro.
-filho. eu te falei tanto pra procurar um emprego.- segurou a cabeça dele. como se tentasse fazê-lo acordar- agora é assim que você chega em casa.
a dor da mãe era sofrida. sentia-se culpada. por não ter evitado. não ter feito ele estudar. e ser alguém. no fundo talvez soubesse. que a culpa nãe era dela. nem de João. que se mantinha firme naquela hora. mas do mundo. que algumas(muitas) vezes. se ausentou. fechou os olhos. assim como eles. que eram os pais. como ele poderia estudar. se mal tinha comida em casa. e como seria alguém. se lutara a vida inteira apenas para ser o rei do morro.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Surpresa!

Ao tocar o interruptor, ainda sorria. E carregava em uma das mãos, o presente que havia ganhado no escritório. Alguém tinha se lembrado do aniversário dela. E quando as luzes se acenderam, o susto.
-SURPRESA!!!
Tinha ali cerca de trinta pessoas, todos conhecidos, alguns amigos antigos, e o namorado. Ela caiu na gargalhada, ficou feliz. Nunca tinham feito festa surpresa pra ela. E fazia anos que ela não tinha festa, sempre escolhia comprar alguma coisa, ou viajar. Claro que se pudesse, faria tudo, mas infelizmente era uma assalariada.
-Gostou da surpresa?
-Foi legal, me diverti a beça com aquela junkebox, e claro com o samba.
-Tentei fazer tudo para vê-la feliz.
-Obrigada Lucas, dessa vez você acertou em cheio.
-Vem vamos ali pra sacada.
-Não; vou limpar essa sujeira.
-Já chamei uma faxineira para limpar tudo isso. Vem logo, quero falar com você.
Livia e Lucas, já namoravam à cerca de dois anos, entre idas e voltas, sempre estiveram perto um do outro. Primeiro quando ele tinha uma banda de rock na adolescência, e vivia cantando Exagerado para ela. Mas naquela época, ela não dava espaço, ele tinha tantas "fãs", e ela não era menina de dividir homem. Era ciumenta. Quando começaram a faculdade, não se desgrudaram mais. E tudo começou.
-A noite está bonita, trouxe meu violão, quero tocar uma coisa pra você.
-Claro, adoro te ouvir tocar...
- "Amor da minha vida, daqui até a eternidade..."
-Essa é velha hein, Lucas!
-Essa é nossa! - disse enquanto se ajoelhava aos pés dela.- Casa comigo?
-O quê? Não temois dinheiro, nem casa, vivemos de salário. Daqui uns anos!
-Não, não! Vamos casar, a gente dá um jeito. Não posso mais esperar, agora somos eu e você...
-Lucas, por mim me casaria com você agora, mas não é assim que funciona.
-Podiamos morar juntos, mas você não aceitaria só isso. Por isso quero que se case comigo, aí podemos dormir e acordar do mesmo lado todos os dias.
Ela saiu da sacada, não queria mais discutir, o que deveria ser óbvio. Por ela, viveria com ele, mas as coisas tinham seu tempo, e ocasiões para acontecer. Talvez ele fosse mesmo exagerado, ou apenas um apaixonado!
-Liv, por mim, teria me casado com você ontem...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O lado errado da vida certa.

Quando ela tinha apenas três anos, lembra-se até hoje, depois de vinte anos passados, que numa bela manhã, encontrou sua mãe aos prantos, desolada, e jogada no chão da cozinha.
-Mamãezinha, tá dodói? Eu vou chamar o papai!
-Não filhinha, seu pai foi embora.
Ela achou que ir embora, era o que ele fazia todo dia de manhã, ao sair para o trabalho, depois ele voltaria. Mas naquele dia, ele não voltou, nem nos próximos meses, nem nos seguintes anos. Hoje, era o aniversário dela, faria 23 anos. Recém formada em direito, estudava para os concursos públicos. Ás vezes sentia falta de ter um pai.
-Mãe, por que o papai foi embora?!
-Mais uma vez esse assunto Dani?!
-Pô, ele é meu pai. Preciso saber se aconteceu alguma coisa. Queria encontrá-lo, perguntar o por que da ausência.
-Seu pai era bom, mas se perdeu no jogo, e na vida boêmia. Um belo dia, me disse que não queria mais os compromissos e responsabilidades, saiu por aquela porta, e nunca mais o vi. Pronto, você já conhece essa história.
-Vou encontrá-lo.
-O quê? Do que você precisa?! Eu já não te dou o suficiente?!
-É mais que isso, preciso saber se foi minha culpa.
No outro dia de manhã, levantou-se, colocou os pés no chão gelado, olhou em volta e estava decidida. Precisava de ajuda, ligou para um amigo. Quinze minutos depois, seu celular vibrava na cômoda.
-Vamos Dani?
-Estou saindo, me dê uns minutinhos Gui.
Ela saiu, entrou no carro dele, ele a beijou, apenas um selinho. Tinham sido namorados, mas ele estava na faculdade, e queria aproveitar o tempo e as festas. Ela não podia esperar, muito menos aceitar. Mas ele, era a única pessoa em que ela confiava e contava. Depois de três anos de namoro poucos amigos lhe restaram.
-Pra onde vamos?
-Não faço a menor idéia, podemos ir à polícia, ou em algum hospital.
E lá se foram, rodaram por tudo, procuraram em todos os lugares possíveis. Ele nunca havia sido preso, nem estivera internado. Infelizmente, ela só sabia o nome dele, e lembrava-se de alguns traços, como uma marca na sobrancelha e a barba falha.
-Vamos embora Dani, já está tarde. Acho que você não precisa fazer isso, vai sofrer mais.
-Pode ir se você quiser, preciso mesmo ficar sozinha.
-Não vou te deixar sozinha, estamos longe de casa.
-Você já me deixou sozinha Gui, quando me deu um fora. Só liguei pra você, porque não conheço muitas pessoas.
-Eu te amo, só pedi que esperasse um pouco. Tenho que viver, mas você sabe que é a mulher da minha vida, o resto é diversão.
-Vou fingir que não ouvi isso. Você é um moleque, que começou a sair ontem, e não sabe bem o que quer. Você é imaturo, eu fazia planos porque era uma tola. Preciso encontrar meu pai, essa cidade não é tão grande. Preciso entender o por quê dele me abandonar. Não me lembro de ter feito nada, só que eu deixava minhas bonecas esparramadas, e lembro que um dia antes dele não voltar, ele culpou minha mãe, pela minha falta de organização.
-Não foi culpa sua, você é especial, diferente. E eu sei disso, só não peço pra voltar, porque você é orgulhosa demais. Prefiro tentar devagar.
-Chega desse papo, vai embora, você já me cansou.
Ela virou as costas, e entrou num boteco, só havia homens ali, o cheiro forte de suor a deixou atordoada. Caminhou até o balcão sobre olhares curiosos, desviava das pessoas, porque no fundo sentia um pouco de vergonha e nojo daquele mundo.
-Por favor, uma água!
Saiu dali depressa, encostou-se na parede descascada do bar, eles gritavam muito lá dentro, de repente, viu pessoas saindo correndo, e outras comn tijolos e garrafas nas mãos. Correu para o lado oposto, assustada, quando uma m~]ao suja a puxou para uma portinha escura.
-Não tenho dinheiro, por favor, não faça nada comigo.
-Acalme-se, só quis lhe ajudar. Uma briga de bar é sempre muito perigosa.
-Nossa você fala bem para um mendingo.
-Não fui sempre assim.
-Ah, entendo senhor. O mundo dá voltas, nunca pensei que estaria aqui também.
-Por que chegou aqui então?
-Procuro um homem chamado Carlos Diniz, é muito importante. Mas desisti, ele sumiu do planeta.
-Olha, acho que sei quem é.
-Verdade? Onde posso encontrá-lo?
-Ele morreu, foi algo estranho. Éramos companheiros em um escritório de advocacia, nos perdemos no jogo, depois nas drogas, gastamos tudo o que tínhamos com mulheres, até que perdemos o controle. Largamos nossas famílias, e chegamos aqui, na rua.
-Não pode ser, ele era meu pai, e ...e...
-Ele foi morto enquanto dormia, quando cheguei perto espumava pela boca, estava branco como papel. Fugi do lugar, era problemas demais para um mendingo, pderiam achar que eu tinha feito algo.
Empurrou aquele homem, e correu, correu, correu. Até chegar ao ponto de ônibus, sentar ali naquela cadeiras duras e frias. Chorava como uma menininha de três anos, doía tanto. Não sabia explicar, olhava ao redor, precisava tanto de alguém. Estava com medo, o celular começou espernear no bolso.
-Alô?
-Onde você tá Dani, é o Gui.
-Estou aqui no ponto de ônibus, perto daquele bar.
-Está chorando? Espera que eu vou te encontrar.
Ela ficou ali. sozinha. perdida. e mal compreendida. Será que era o destino? A vida? O tempo?
Qualquer coisa que fosse, ela não entenderia.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Relação Homem e Mulher: Recursos Humanos.

Trabalhavam na mesma empresa. Ambos eram responsáveis pela admissão e demissão dos funcionários. Ele tinha um apartamento. Ela pagava aluguel. Todos os dias se encontravam as 6 e quinze da manhã no Café Mundi, antes do expediente de trabalho.
-Como é seu nome?
-Sofia. E o seu?
-Henrique. Te vejo o dia todo, mas não te conheço muito bem.
-Pois é. Meu dia passa voando. A empresa toma muito tempo, além de me deixar preocupada demais.
Talvez por ser mulher, ela pensava mais que ele. O salário era desigual. Talvez por ser homem, ele ganhava mais que ela.
Os funcionários da empresa, que tinha o mesmo número de homens e mulheres, gostava mais de Sofia. Henrique era “durão”, carrancudo e muito cheio de si. Ela não. Ouvia, conversava, sorria e sempre arranjava uma solução para os problemas.
Todos os dias se viam, é verdade. Mas nem sempre conversavam. Sofia pensava que Henrique competia com ela. Ele achava Sofia sensível demais.
-De novo no café?- Henrique.
-Pois é. Acho mais prático me alimentar no caminho. Assim vou organizando meu dia em pensamento.- sorriu Sofia.
-Não precisa se organizar tanto. Basta olhar os currículos, alguns servem, outros não.- Encarou-a.
-Gosto de ouvir o que eles pensam, conhecer a história de vida.
-Mas se faz isso com todos, você perde muito tempo.- Indignado.
-Não acho que conversar é perder tempo.- Olhou-o com um leve sorriso.
-Mulheres. Falam demais mesmo.
Viviam num mesmo mundo. Mas como homem e mulher, pareciam ser de outro planeta. Era difícil pra ele dividir a sala com uma mulher. Os tempos haviam mudado. Ela não se importava em olhar para a cara dele, mas achava que precisava de mais espaço, afinal tinha mais objetos. De certa forma, eram homem e mulher. Diferentes de um lado, complementares em outro. E embora tivessem visões divergentes, faziam a mesma coisa no RH.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

palavras. e mais palavras. outras palavras. tantas palavras.

Estavam em todos os lugares. manchadas. pintadas. escritas. podia tocá-las todo momento. em papel. ou voando com o vento. ela amava o que via. os sentidos. e significados. as histórias. e contextos. por isso se tornara escritora. porque ouvia. porque lia. porque descobria. eram histórias feitas de palavras. e traduzidas em frases. incorentes eram os loucos que não podiam ver. mas ela era incompreendida. porque só escrevia. era uma paixão. alucinação. sem coordenação. ás vezes quando ficava quieta. as histórias chegavam a ela. mesmo que em murmúrios. ou em gritantes sons. nem mesmo ela entendia. mas sabia. que era escolhida. não tinha endereço. nem parentesco. por isso se nomeava filha do mundo. das palavras. das línguas. dos mais profundos saberes. que em alguns momentos. ela não desvendava. por que tentava?
era perseguida. persuadida. entorpecida. era um vício aquele. ou sinônimo de vida. eram palavras. e mais palvras. e outras palavras. tantas palavras. e ela. só ela. ali no meio. peridida. mas gozava do saber. que só ela via. estava por todos os redores. em linhas maiores. escritas em por menores. e mais palavras.
tinha ela um dom. que poucos tiveram . o de triunfar. num mundo cego.

-Por que não vêem o que está escrito embaixo de seus olhos? está em todos os lugares. nas avenidas. e nas ruas pequenas. na penumbra da rotina. no mergulhar do dia. -gritou isso certa vez.

era doido mesmo esse mundo. que não tirava os tampões. ela tirava tudo. se despia para o novo. e o velho. o claro. e o escuro. desacreditava em tudo o que vinha dos impacientes. porque eles não viviam. tampouco cruzavam palavras.

Tudo o que ela não inventava, não era real. e ponto final.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Breve.

Ela sentia uma coisa estranha. as coisas pareciam fora do lugar. as cores já estavam desbotada. e o vento já não era mais brisa também. não sabia bem o que era. talvez estivesse fora do lugar. vagando. como uma criança perdida. que sente tanto medo depois do primeiro quarteirão desconhecido. procurava por ela mesma. não por ninguém. batia de porta em porta. tocava campainha. comprava fichas pra telefonar. mas estava só. ali. era a única que não sabia pra onde ia. vai ver que era por isso que ninguém ajudava. passou tantos anos seguindo passos. até descobrir que sabia andar sozinha. mesmo que não se sentisse segura. ajeitou a toca felpuda na cabeça. e olhou ao redor. viu tantas coisas. que nem sabia por onde começar. sorriu. os olhos dela brilhavam. o casaco aberto. fazia um movimento. como se tirasse a garota pra dançar. então ela saltitou. era levada. não se importava que os outros olhavam. porque agora ela estava só com ela mesma.

a maior verdade do mundo, é aquela que você acredita.

e ela tinha um lar agora. que era dela. por isso ela acreditava. que por mais ausente que estivesse. voltou a tempo de se encontrar.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A hora.

Ela sentia tanta dor, ajoelhava-se no chão enquanto os olhos se encobriam de água. Nada podia fazer, a não ser viver daquela maneira. O médico a recomendou outra sessão de um tratamento de choque, que daria a ela mais uns meses de vida.
Ela recusou, preferia viver só mais uns dias, era difícil esperar por alguém que roubarua dela a vida e não a traria de volta. Com as mãos trêmulas, buscou apoio na bengala que usava já há alguns meses, colocou uma roupa simples, e passou a mão nos cabelos, que já não existia mais.
Trancou a porta da casa que morava há longos anos, e por alguns segundos se lembrou dos bons momentos que desfrutara ali, ao lado de amigos e amores. Embora fosse sozinha agora, jamais deixou de se divertir com diferentes companheiros. Desceu as escadas, até o pequeno jardim, e vagarosamente chegou à calçada, onde acenou para um táxi.
-Quer ajuda senhora?
-Não precisa não, basta um pouco de paciência e eu me encaixo.
-Dia quente hoje, né?
-Olha sinto tanto frio, até mesmo quando o sol chega aos 40 graus, mas me lembro o quanto eu gostava de dias assim. Sempre preferi o calor ao frio.
-Ahhh...No frio as pessoas saem menos.
-Saem menos e deixam de se divertir.
-Aonde vamos?
-Me deixe no Ibirapuera, preciso ir à casa de um velho amigo.
O diálogo acabou ali, e ela se virou para janela, para que pudesse olhar mais uma vez as pessoas e a paisagem. Quanto já tinha andado pelas largas ruas daquela cidade grande, e tida como tão perigosa. Ela nunca teve medo, nem receios, sempre viveu. Para memória trouxe ainda o dia em que conheceu Alberto, alto, de olhos verdes, e cabelos cor de caramelo encaracolado, tinha acabado de chegar, e não sabia tomar ônibus, ele a ajudou, depois disso não deixaram mais de se ver. Chegaram até a namorar, mas ela tinha tantos companheiros naqueles anos dourados, que ele não suportou. Era ciumento, queria que ela fosse só dele, chegou a convidá-la para que morassem juntos.
Ela sorriu, e achou que ele estava contando uma piada, ela morar com um homem, queria ser livre, conhecer pessoas, viajar. E não cuidar de homem e casa, ele insistiu mais algumas vezes, mandou algumas cartas com lindos poemas, e depois, cansado, foi cuidar da vida.
Alguns anos depois, ele se casou, e mandou um convite para ela, no verso estava escrito que a amava, e que se ela mudasse de idéia ele não casava. Ela nem sequer foi ao casamento, estava bebendo vinho naquela noite, com alguns amigos, e se esqueceu. Ficou ainda alguns anos sem saber dele, e com a mão no coração, nesse momento, ela se lembra da saudade que sentiu. Era tarde demais, os anos 70 haviam passado, nenhum amigo lhe restou, a não ser algumas dependências, da qual ela se curaria mais tarde.
- Deu trinta e nove reais senhora.
-Obrigada.- disse ela depois de pagar e abrir a porta do táxi.
-Se quiser posso vir busca-la, fique com meu telefone.
-Obrigada mais uma vez, se precisar eu ligo.
A passos curtos, e com um pouco de falta de ar, ela andava pelo Ibirapuera, lembrando das manifestações de paz, que havia promovido, e dos luais que sempre acabavam na delegacia. Eram tempos difíceis aqueles, perdeu alguns amigos inclusive, no âmago da ditadura militar.
Chegou até um sebo, grande, empanturrado de livros e Cds, os corredores pareciam sem fim, e o cheiro de velharia,a fez espirrar. Um jovem se aproximou dela, olhou a palidez de seu rosto, e gritou para seu avô, precisava de ajuda, uma senhora passava mal. Ao chegar perto da senhora, o avô do rapaz até assutou.
-Corra Léo, chame uma ambulância!
-Alberto, é você?
-Margarida?
-Sim...não precisa chamar ninguém, a minha hora chegou.
-Não, acalme-se, não quero que sinta dor.
-Não sinto mais nada, precisava apenas encontrar a única pessoa que me amou de verdade. Quem foi que disse que eu não estaria nos seus braços mais uma vez?- tentou esboçar um sorriso.
-Permaneceu em meu coração todos esses anos...- disse ele olhando-a.
Ela fechou os olhos, e com um leve sorriso no rosto, disse adeus a seus dois grandes amores, a vida e Alberto.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A música.

Tomava o café, ali perto da casa dela. As paredes brancas, e a porta vermelha chamavam a atenção. Ela tinha escolhido, tudo o que estava ali, naquela casa, que era só dela. Pensava ser o mundo mais próximo do que ela queria. As fotos espalhadas pela parede, e pelas mesas redondas, a cortina quase transparente, os tacos no chão que cismavam fazer barulho quando ela andava. Ela sorria ao olhar para a casa de número 13, na rua das Palmeiras, com portão baixo, e muros cobertos de tijolinhos à vista. Ela que promovia eventos, conhecia tantas pessoas, saia todas as noites, menos aos domingos, quando ela gostava de ficar em casa, lendo, vendo tevê, ouvindo samba, olhando para os cantos. Precisava tanto descansar, tirar férias, mas não queria sair de casa, nem chamar os mais próximos para reuniões ou jantares. Precisava se encontrar sozinha, sem conselhos, sem risadas que não fossem as dela. Os cabelos ondulados, e sempre preso, ainda cheiravam o banho que tomou antes de sair de casa. Deixou o dinheiro do café, do lado da mesa, não cumprimentou ninguém, e saiu, caminhando pelas ruas, que ela conhecia tanto, e tão de perto. O cheiro de maça, que aquele bairro tinha, as pessoas paradas no portão, era tudo familiar. Ela observava silenciosa, cada passo que não fosse o seu, gostava de pessoas, mas não mantinha proximidades, era sozinha por opção. Tinha receio de se envolver, se decepcionar, criar casos, enfrentar brigas, conviver com mentiras. Para ela, que não precisava de ajuda, tudo estava bem até ali. Ao chegar no escritório de paredes brancas, e gente sem graça, a qual ela se animava de mentira, pegou um bilhete que dizia apenas: Mensagem de Amor. Perguntou quem havia deixado aquele papel em sua mesa, mas ninguém sabia ao certo. Olhou mais uma vez, as curvas feitas a mão, o jeito como foram colocadas as palavras, precisava saber.
-Hoje temos que organizar uma festa particular, de um tal de Caio Mendes, parece que é um jovem rico, que quer animar as mulheres, quer que tenha desfile, samba e frases jogadas na festa.
Ela respondeu que sim com a cabeça. Faria isso, porque era o trabalho dela, e mais uma vez teria que ficar fora de casa. Depois de trabalhar o dia todo, tomou um banho, ali mesmo no escritório opaco, deixou a água quente tocar seu corpo, e abaixou a cabeça, precisava de um tempo, de toda aquela coisa, de ser de mentira.
A festa estava cheia de mulheres, conhecidas e anônimas, mas todas cheias de classe, e beleza atraente. Ela vestia um vestido vermelho de seda, maquiagem leve, e rádio comunicador nas mãos. Não gostava que nada desse errado, era profissional e boa no que fazia, embora estivesse sem grandes ânimos pra tudo aquilo.
- Por favor, preciso de um minuto de atenção de todos vocês. Sou Caio Mendes, não sei se todos sabem, mas enfim, vocês estão em minha casa, e eu preciso que vão embora. Essa festa foi só um motivo do qual eu precisava, esperei por vários anos, alguém que só encontrei agora. Sim, é isso mesmo adeus a todos, e obrigado por se divertirem as minhas custas.
Foi assim, curto e grosso, ela espantada abaixou a cabeça, e apoiou as mãos na testa, como se aquilo tudo fosse irreal. Aquele homem, loiro, de olhos esverdeados, alto, inteligente, desejado. Como podia ser tão indiscreto, e insensível, e além de tudo dar tanto trabalho sem motivo? Não podia ter chamado a tal moça pra jantar, ligar, mandar flores, parecia tão simples.
-Oi- disse ele.
-Olá, já estou me retirando, amanhã o pessoal aparece para limpar sua casa.-disse ela, seca.
-Não se lembra de mim? O caio, aquele gordinho, perturbador que implicava com você até a quarta série?
-Estou cansada, não preciso de um doido inventando histórias.
-Claro que se lembra, você me odiava, porque eu te chamava de Maria-Chorona.
-Acho que me lembro sim, você me traumatizou, tanto que hoje eu não choro mais.
-Que bom, que te fiz um bem. Te procurei por tanto tempo, a última vez que te vi, foi quando tínhamos 16 anos, no show de Marcelo, nem me lembro onde.
-Pois é.
-Antes que você vá embora, preciso que me conceda uma dança.
Sem que ela respondesse, ele deu sinal para a banda que estava no canto do jardim, e então começaram a tocar Mensagem de amor. Ela logo entendeu de quem era o bilhete, que tanto a intrigou pela manhã. Ele deslizava as mãos nas costas dela, e a segurava, sem que ela pudesse escapar. Ela encostou o rosto nos ombros dele, sem entender, porque ela, ele podia escolher tantas ali, ou em outro lugar.
-Eu me apaixonei por você, desde que te vi há 15 anos atrás. Quis tanto te encontrar em qualquer canto, fui até sua casa antiga, mas você já não estava mais lá. Outro dia te vi saindo de uma casa de porta vermelha, parei ali, e desejei que fosse minha, nem que fosse só por uma dança. Nossa música, foi a que o Marcelo tocou no momento em que te vi.
-Fico feliz pelo seu interesse, mas entenda, os tempos são outros, eu não tenho mais nove nem 16 anos, não procuro relações mais estreitas. Gosto da minha vida como ela é.
-Não quero que você mude nada, quero apenas que me dê uma chance, de te conhecer, de perceber que eu estava certo.
Ela o empurrou, saiu correndo, como se precisasse fugir, dele, ou dela mesma. Parou na porta do carro, ajoelhou e chorou. Não deixava ninguém chegar perto dela, ela se assustava, porque gostava do que era. Era o que pensava, mas nem sempre o que sentia. Desejou que ele viesse atrás dela, e sem dizer nada a beijasse. Ele não foi, ela esperou até o amanhecer, foi pra casa. Ao abrir a porta, tirou os sapatos, que já apertavam os pés, ligou o rádio, e sentou no corredor. A música deles, tocava e embalava as lembranças que ela não guardava, Mensagem de Amor, foi a música que ele mandou tocar todos os dias pra ela, durante 30 anos, no mesmo horário. Ela permaneceu ali, naquela casa branca, de portas vermelhas, Ele também ficou no mesmo lugar. Em todos esses anos, ouviam a música deles, pensavam um no outro. Até que um dia, cansado de desejar, foi a procura dela. E ela estava ali ao lado da casa de portas vermelhas, tomando café, quando viu um senhor se aproximar, e olhar para o portão da casa. Assustada, ela correu, saber o que queria ali. Quando ele se virou, nada disse, apenas a beijou.

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Os livros na estante já não tem mais tanta importância /Do muito que eu li, do pouco que eu sei/Nada me resta/A não ser a vontade de te encontrar/O motivo eu já nem sei/Nem que seja só para estar ao seu lado/Só pra ler no seu rosto/Uma mensagem de amor/A noite eu me deito,/Então escuto a mensagem no ar/Tambores rufando/Eu já não tenho nada pra te dar/A não ser a vontade de te encontrar/O motivo eu já nem sei/Nem que seja só para estar ao seu lado/Só pra ler no seu rosto/Uma mensagem de amor/No céu estrelado eu me perco/Com os pés na terra/Vagando entre os astros/Nada me move nem me faz parar/A não ser a vontade de te encontrar/O motivo eu já nem sei/Nem que seja só para estar ao seu lado/Só pra ler no seu rosto/Uma mensagem de amor.
(Mensagem de Amor)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

a Volta

começava a se vestir quando o dia fugia. trabalhava a noite. com roupas curtas. maquiagem tonante. e clientes fumegantes. parte dessa escolha tinha sido a necessidade. mas ela gostava. porque se sentia corajosa. forte. e dona de si mesma. não tinha família. desde o dia em que se tornara prostituta. e também não tinha horário. nem regras. mas precisava sobreviver. e vendia o corpo. as camas eram sujas. os carros apertados. as esquinas perigosas. mas ela era de ferro. quando sentia a luz quente no corpo. já o curvava. e debruçava na janela.
-Quanto é?
-Quanto você acha que vale?
-Olha acho que prazer deveria ser gratuito. mas pra você eu dou quarenta.
-Pra me possuir é cem.
-Nossa delícia...
-Vai ser inesquecível. prometo.
ele destravou a porta. e ela começou o trabalho. ali mesmo. enquanto o sinal fechava. as pessoas ao lado. não incomodavam a manifestação dela. era apenas uma profissional. que dormia de dia. fazia aquilo por si mesma. mas até quando. seguraria a barra. de ser sozinha. não tinha nem confidentes. tampouco amigos. lhe bastava os vizinhos. intrometidos. qua tanto comentavam a vida dela. naquela noite. ela foi embora. antes do sol raiar. estava incomodada. foi andando. e deslizando no asfalto imundo da cidade grande. os carros pareciam holofotes. mas ela continuava. não mudava o passo que era lento. e fazia barulho. a chuva começou a molhar os curtos cabelos negros. e ainda borrar a maquiagem dela. que continuava. sem olhar pra trás. e nem encarar ninguém de frente. o corpo esguio. girava ao som de um trompete imaginário. e ela erguia os braços.
-Cansei de ser herói. cansei da noite. cansei de mim.
foi assim que chegou em casa. morta. por fora. e por dentro. queria ser fraca por um momento. e desistir de tudo. voltar pra casa. pedir desculpas. se redmir da vergonha. tinha pensado por tantos anos que estava certa. mas percebeu que ser de qualquer um. se sujeitar a qualquer canto. não deveria ser assim. precisava de atenção. de jantares. de cinema. de beijos furtivos. e sorrisos abertos. queria alguém que fosse só dela. estava tão cheia de lamentações. quando começou a arrumar as malas. não voltaria pra imperdoável esquina da solidão. seria seguidora de um Deus. mesmo que não acreditasse em nada. seria boa como sua mãe. que sabia de tudo. mesmo sem ter sequer o ensino fundamental completo. queria conhecer todos os cantos. não seria mais escolhida pelas luzes da noite. agora era hora de voltar. pegou um ônibus que rumava para o interior. e foi olhando pela janela. tudo o que estava deixando. ao chegar no seu lugar. olhou em volta. tudo estava tão igual. as mesmas pessoas. e outras tantas. foi andando. devagar. todos foficavam. mas ela não se importava com isso. continuava. ao chegar em sua casa. viu sua mãe no portão. como se soubesse que ela chegaria. o sorriso daquela velha senhora. de cabelos negros. misturados com os brancos. se abriu. e ela correu pra receber a filha.
-Senti tanta saudade. te esperei por todos estes anos. aqui nesse portão.
-...- ela preferiu não dizer nada. os olhos cheios de água. lambusavam os ombros da mãe.
ao pisar em casa. sentiu o cheiro que nunca havia esquecido. os quadros estavam no mesmo lugar. assim como o tapete marrom e palha. e o sofá era aquele marrom que ela viu seu pai carregar um dia.
-Sente-se. vou chamar o papai. ele vai ficar feliz também.
ela não tinha muita certeza sobre isso. seu pai jamais a aceitaria de volta. mas talvez se ela dissesse arrependida. ou explicasse que precisava de um tempo. poderia ser entendida. por ele. que era um senhor alto. com pernas fias. e uma barriga saliente. os cabelos brancos. e a buchecha vermelha. chegou a porta. olhou-a. como se estivesse inconformado. jamais esperaria ela ali. no seu sofá. ficou por alguns segundos parado. tudo estava em silêncio. a mãe na expectativa. assim como ela. o que ele faria.
-Eu voltei. porque...
-Não precisa me dizer nada. você é minha família. e te esperei todos esse anos. que entrasse por aquela porta. e eu pudesse alisar seus cabelos mais uma vez. fui muito duro com você. e deixa tudo isso pra lá. vem vamos almoçar.
foi assim que ela perdeu a coragem. e voltou. desistiu. resistiu. mudou de vida.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ufaaa, falei!

De quantos tombos precisamos, para aprender a andar direito?
Foi essa a pergunta que me fiz, centenas de vezes. Depois de abominar algumas regras, desistir de alguns lugares, insistir em algumas pessoas, percebi que quanto mais eu erro, menos aprendo.
Muito se fala do amor. do toque. da espera. do sentido. mais não quero falar disso exatamente. quero mais. quero falar de pessoas. e essas cada vez que respiro. precebo que não valem a pena. não que eu seja exagerada. ou parcial demais.me sinto apenas sincera. realista. vivida. não sei como os outros são; e por isso acredito que todos se pareçam comigo. e quando me simpatizo com alguém. e ainda vou mais além. o chamo de amigo. esta pessoa. perde nome. sobrenome. conta bancária. atributos físicos. sobram apenas as risadas. as lágrimas que a gente seca. as histórias que a gente guarda pra contar depois. as noites que dividimos a mesma cama. ou no mesmo espaço. a roupa que a gente empresta. os conselhos que a gente dá e recebe. a preocupação que guardamos. as músicas que ouvimos. o segredo que contamos. e algumas outras tantas coisas. eu pelo menos sou assim. apesar de ser uma pessoa de poucos amigos. porque não acho que essa seja uma qualidade. que se dá em qualquer esquina. ou se compra em um botequim. penso que ser amigo. é atemporal. não tem lugar. não tem distância. e se lixa pra conta de telefone. e mais. muito mais. chega a ser amor. e eu dou minha vida para as pessoas que amo. porque só sei ser exagerada. excessiva. demasiada. hipérbole continuada. é meu jeito. minha sintonia. minha pessoalidade. e depois eu tombo. porque acredito que as pessoas são assim. como eu. que acordam de madrugada. que atendem os telefonemas. que passam a noite no hospital. que dão carona. deixam de matar a fome. para dividir com o amigo. gastam a mesada na conta do telefone. porque amigos. são pra essas coisas. inclusive para comprar brigas. da qual você não faça parte. afinal quem mexe com algum amigo seu. te torna parte do evento. parece engraçado. sem não fosse tão trágico. ou real. as palavras aqui jogadas. são um desabafo. de alguém frustrado. com a vida real. com os amigos. que a gente descobre que são de mentira. ou imaginários. e infelizmente. a gente cai. e espera levantar. mas o tempo. esse sim é nosso melhor amigo. traz todas as curas. e guarda todas as boas histórias.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O Contador de História.

Ficava sobre a mesa. Ao lado de uma caneta e um pincel. Era papel branco e vazio. E sentia medo de ser esquecido. Queria cor, olhava palavras, esperava sentidos.
Certo dia, achou que seria útil, poderia narrar história, desenhar sol e lua, ou ainda guardar segredos. Passava a vida só, tentou conversar com um clips uma vez, mas ele não respondeu.
A caneta o tocou um dia. Perguntou se doía. O papel disse que não. Desejou por tantas vezes aquele momento. Até que se apaixonou.
As palavras ali jogadas, o transformavam em contador, aventureiro, namorado e amante. E a caneta o tocava. Tão suave era seu cheiro e tão gostoso seu sabor.
Depois de dias entrelaçados, a caneta e o papel se despediram. Ele tinha sido dela e ela havia se derramado nele. Era um amor de tardes e noites, às vezes manhãs.
No outro dia, o papel voltou a ser só, sobre a mesa. A caneta era vista de longe. E mesmo que desejada, não era mais dele. Talvez não houvesse espaço no papel, ou então era porque ela era de outro, e não podia mais ser dele.


P.s: Esse texto foi retirado de um portifólio, feito como trabalho estudantil, ainda este ano por mim.

sábado, 1 de novembro de 2008

o ato.

pensou em sair dali. à noite. pra que ninguém pudesse vê-la. nem reconhece-la. iria embora. trancaria as portas da casa amarela. junto com as janelas. apagaria as luzes. e nunca mais voltaria. nem pra limpar a sujeira. que o abandono deixa. pensou em se mudar pra cidade vizinha. apesar da ebulição. pela qual passava. não queria ficar tão longe de sua vida. só precisava de um tempo. talvez se montasse uma cabana no meio do mato. mas teria medo do silêncio que a noite faz. e também. precisaria conversar. uma hora ou outra. com alguém. podia ser desconhecido. as pessoas com a qual ela mantinha relações sociais. estavam tão distantes. que só lhe restava o resto do mundo. que pra ela parecia pouco. sempre quis mais. mais gente. mais calor. mais frio. mais noite. mais comida. mais cerveja. mais cigarro. era uma exagerada verdadeira. tinha tanto medo de morrer. ali. sem nunca ter tido outra vida. que num súbito colapso de imensa força. mostrou-se encorajada. era hora de pedir demissão. e se readmitir na sessão de vida. passava horas naquela sala. átras de pessoas. que por vários anos. mal a olhavam dentro dos olhos. era uma convivência superficial. da qual ela não sentiria falta. queria mais calor humano. essa coisa de educação. já não lhe passava mais pela cabeça. agora faria o que tinha vontade. não agradaria mais ninguém. que não a encarasse de frente. não deixaria de pisar na grama também. principalmente quando estivesse chovendo. era livre do mundo. e de si mesma. deixaria as roupas guardadas no ármario. a torneira fechada. o portão trancado. levaria consigo. só o que lhe importava. de resto. nada restava. cansou. deixou. e foi. viver a vida.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Gabi e Gi.

o telefone tocava mais alto do que a vontade dela de atender. não esperava ligações de ninguém. parecia um incômodo. naquela hora. ela acabara de se deitar. mas ele não parava. esguelava. pertubava. ela levantou-se de súbito do sofá.
-Alô? disse ela em tom estridente.
-Gabi. é você? disse uma voz que ela parecia conhecer.
-Sim. quem é?
-Sou eu, o Gi. estava pensando em você. precisava ouvir sua voz.
-Está tudo bem comigo. a correria é grande. mas do mais...
-Ah. sinto falta de poder conversar com você todas as manhãs. quando pegávamos o mesmo ônibus. e eu vivia te salvando de apuros.
-Era bem legal. conversávamos muito né...
-É sim. falávamos de nós. nossos sonhos. nossas vontades. nossos medos. nossa vida. era legal.
-Além do mais você me levava a lugares íncriveis.
-É mesmo. eu conhecia mais a cidade que você. gostava de mostrar as coisas. ficavamos mais tempo juntos. sem pressa. mesmo quando você andava rápido demais.
-Ahh. era a cidade. não sei explicar.
-Foi triste ter que me despedir de você, Gabi. tomamos uma coca-cola num posto. repleto de gente. tinha algumas coisas pra dizer.
-É foi ruim ter que voltar também. mas faz parte. e não me trate como se eu estivesse morta. sempre que precisar sabe onde me encontrar.
-Mas é diferente. é distante.
-Não precisa ser. te tenho como um grande amigo até hoje. e as coisas não precisam mudar.
-VocÊ sabe que eu te amo muito né...
-...(silêncio) minha campainha tá tocando. tenho que ir Gi. mas se precisar de ajuda. ou qualquer coisa.
-Tchau.
e desligou. ela ficou espantada. há tanto tempo que não falava com ele. nem sequer sabia direito como ele estava. e pensar que ela esperou tanto. desejou tanto que ele falasse alguma coisa. que ele sentisse o que ela sentia. mas por não saber. se calou. se guardou. e agora vive. vai se casar no começo do ano que vem. e mesmo. ficando ali. pensativa. não podia esperar mais. já havia dedicado longo tempo de sua vida a ele. agora era de outro. e firmaria juramento. eterno. não podia mais voltar átras. era insensato. e nem sequer tinha certeza. atendeu a porta. era o noivo. que chegava com flores. e sorrisos. que eram dela. sem segredo. sem espera. sem medo. a porta se fechou. e ela pensou. mas agora não tinha tempo...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Till the end.

(Imagem-Devian Art)

Na parede ainda estava a frase deles. ele tinha ecsrito de canetinha. enquanto ela tomava banho. era a maior declaração que ele havia feito. embora fizesse tudo por ela. fugia de casa. esperava no portão. cuidava dela. segurava ela nos braços. cantava. fazia poesia. mandava flores. possuia. fazia jantar. ia à alguns lugares que odiava. telefonava todas as noites. enviava cartas.
e ela. escrevia todas as noites pra ele. se guardava pra ele. esperava por ele. qualquer toque do telefone ela vibrava. desejava que ele aparecesse de surpresa. no meio da noite. só pra ficar com ela. mesmo que em segredo. pularia no colo dele. abraçaria ele com tanta força. depois beijaria ele por algum tempo interminável. olharia nos olhos dele. pra ter certreza. e então saberia. pensava nele. o tempo podia voar. pra que eles logo ficassem juntos.
-Tenho tanto medo de te perder.
-Não. Eu sou sua desde que éramos crianças. Não é qualquer um que encontra a pessoa de sua vida na infância.
-Se pudesse te daria o céu.
-Não é isso que quero. Só você. Só nós. No mesmo teto. Todas as manhãs. Tardes. E Noites.
o amor dela tinha escolhido ele. assim. querendo. foi uma justaposição de sentimentos bons. desde a primeira vez que o viu. os cabelos dourados. que ela gostava tanto de desarrumar. os olhos esverdeados. a boca. as mãos. tudo. ela queria tudo dele. desejava o inteiro. olhou de novo para a parede e sorriu. a frase deles perpetuava ali. assim como a história deles. a frase que ele tinha escrito. era o que simbolizava o amor deles. ali. paticular. privativo. dizia assim: TE AMO DAQUI ATÉ A LUA IDA E VOLTA PRA SEMPRE.

P.s:
Ao meu primeiro e grande amor(desde que éramos duas crianças).

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Cegueira.

esfregou os olhos. fortemente. mas nada podia ver. a não ser uma sombra branca. havia ficado cega. não via nada. no primeiro momento. se apavarou. estava no meio de uma rua movimentada. ouvia buzinas. pedia socorro. mas ninguém mudava o rumo. nem sequer entortava a cabeça. pra ver o que acontecia ali. sentiu alguém lhe puxar o braço. e perguntar se estava tudo bem. ela disse que estava cega. misteriosamente. os sintomas ocorreram com mais alguns milhares de pessoas. e o mundo se tranformou num caos. e foi assim. que a loucura. mais porca. e absurda. se instalou. as pessoas pararam. porque agora não podiam ver. a violência continuou. agora não precisavam mais temer. ninguém podia enxergar. nem denunciar. era a lei da sobrevivência. a lei dos homens. a lei da vida. quem for mais forte. e mais esperto vive.
TRIM. TRIM. TRIM!!!
era o despertador. que insistia em chama-la naquela manhã. interrompera seu sono. iniciara sua realidade. tocou o chão. ainda com os pés descalços. como era quente aquele quarto. abriu a janela. pra entrar ar e luz. foi até a pia. pegou escova. e pasta de dente. se olhou no espelho. e olhou de novo. pra ter certeza que enxergava. ufa. podia ver. que alívio. não tropeçaria. nem teria problemas. com buracos na rua. foi isso que pensou. como era egoísta. ao trancar o portão. se virou para o ponto de ônibus. que ficava na p´roxima esquina. havia algumas pessoas lá. as mesmas de sempre na verdade. conviviam a semana toda. e nem sequer sabiam os nomes. um do outro. lembrou um dia que fora assaltada. todos em volta. olhavam. mas ninguém a ajudou. deixaram acontecer. como se não enxergassem. ou então aquelas crianças. ali jogadas na rua. ela via todo dia. parecia não enxergá-las. talvez tivesse sonhado a verdade. eram cegos. todos. o mundo já era um caos. por completo. o poder já trazia violência e medo. além de desigualdade. podiam não perceber. mas tropeçavam todos os dias em buracos. que os outros deixavam ali. sem aviso. porque eram egoistas como ela. não se importavam. a lei era viver só. e passar por cima de tudo. inclusive de pessoas. que coisa doida era essa. ela começou a pensar. e deciciu que nunca mais queria sonhar de novo...

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

o elevador.

ele chegava na casa dela. e lá vinha a grande ladainha. nada era bom o suficiente. tudo ela implicava. era o tempo. era a TV. ou o guarda-roupa. ele só ouvia. olhava para os lados. como quem quisesse falar de outra coisa. qualquer assunto. menos aquele pessimismo. exacerbado. que ás vezes a tornava chata. ela não era chata. só exagerada. tinha o vício de falar de mais. e ouvir de menos. ele até que gostava. mas alguns dias. enjoava. por isso pediu um copo de água.
-Linda, me dá um copo de água?
ela parou espantada com o pedido. porque ele sabia onde ficava os copos. e também a água. surpresa. ela questionou.
-Você quer gelada ou do filtro?
-Pode ser gelada. tá calor hoje.
-Pois é. esse tempo maluco...
-Ahhh...o que vamos fazer hoje? você está maquiada. mas ainda de pijamas.
-Vou me trocar. é rápido. já sei com que roupa vou. só um minutunho.
bom sempre que ela dizia que seria rápido. ele esperava por pelo menos meia hora. mas dessa vez. foram apenas alguns minutos. e ela apareceu no corredor. ele não tirou os olhos no corpo dela. como estava linda. desejou-a. ali. naquele instante. sem pressa.
-Vamos?
-Claro minha Linda...
-Onde você vai me levar hoje? sorriu ela.
-Pras estrelas.
-Nossa...agora você me deixou animada. faz frio lá? porque se fizer preciso pegar um casaco...
-Não. fica assim. desse jeito. tá bonito. eu gosto.
-Tudo bem.
ela saiu na frente. e ele paralisado. ainda atordoado. olhava ela. agora aceitava todas as injúrias que ela tinha. podia falar demais. podia fazer qualquer coisa. desde que estivesse ao lado dele. com ele. ele. apesar de ter sido marcado pela forte vontade carnal. olhou para o sorriso que ela tinha. e as covinhas que marcavam a buchecha dela. como ele a achava perfeita. e a amava. sim. era amor. depois de tanto tempo. parecia que se conheciam. tudo. o que um gostava. o que o outro detestava. e viviam. assim. desvendando. e marcando as partes. que eram só deles. o elevador então chegou. ela chamou. ele correu. foram eles a caminho das estrelas.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

o áquario e a selva de pedras

Enquanto olhava aquele aquário. perseguia os peixes. porque sentia ciúme deles. podiam viver naquela bolha de água. mesmo que pequena. parecia interessante. tapou o nariz. prendeu a respiração. queria ver quanto aguentava. não suportava mais a idéia de viver naquela selva de pedras. as pessoas que eram animais. tranformaram o habitat. em algo sujo. feio. sem contar em como se comportavam. agora quando amavam. matavam. ignoravam-se por vaidade. se diferenciavam por cor. se iludiam com egoísmo. se vendiam por status. se maquiavam pra fingir. ela não. queria um viver diferente. queria chorar de saudade. amaria com toda intensidade. não teria cor nenhuma. nem seria vaidosa. porque queria ser só alguém que vive. e isso não significava que tudo seria bom. nem legal. tampouco fácil. ela se divertiria. na medida do possível. quando tivesse que se aborrecer. pronto. se aborreceria. depois iria para uma locadora. alugaria dançando na chuva. estoraria pipoca em casa. e apagaria as luzes. para parecer cinema. e sorriria. depois choraria. então dormiria. e acordaria. tomaria café. se vestiria. iria para o trabalho. cumprimentaria as pessoas na rua. tomaria um ônibus. depois o metrô. seria normal. acontece que o mundo hoje. era estranho. as pessoas se comportavam de uma forma banal. talvez nem fossem mais um animal. eram um monstro. pode ser. é que pareciam. quando falavam e agiam. não. essa coisa toda não era pra ela. porque aquela menina não sabia. como mexer em revólver. nem como bater nas pessoas. sabia no máximo. se irritar. falar algumas coisas. mas depois desculpava-se. tinha medo de ser como eles. ou mesmo de não poder impedi-los. por isso queria que o mundo parasse. este era um brinquedo. do qual ela gostaria de descer. tava enjoada de tanta violência. se tornou intolerante com a dor. sua. e dos outros.

P.S: Este texto foi feito para as pessoas que esqueceram o que é viver. tornaram-se hipócritas. a ponto de fingir. e então. dizem não valer a pena. acredito que para ninguém. a vida tem sempre sabor de leite condensado. alguns momentos sentimos o gosto amargo do jiló. mas continuamos. chorar faz parte. assim como sorrir. perder um companheiro. é normal. dói. depois passa. e mesmo que você nunca o esqueça. você pode ser feliz com outro. e completo também. porque cada um é inteiro. ninguém tem a outra parte. porque ninguém pode ser responsável por outro. além de si mesmo. espero por mim. e por todos. que as pessoas pensem. de verdade. e vejam que as coisas não estão certas. não como estão hoje. e não digo isso apenas pelo que vejo na TV. tanto Eloá. como a menina Isabella. foram vítimas. de nossa indiferença. de nosso descaso. porque achamos que tudo é normal. que é época. não. não é. alguns principios não são deixados no tempo. não importa que alguns anos passem. matar. roubar. machucar. isso nunca vai ser certo. nem ter justificativa. por isso parem de fechar os olhos. e não deixem o mundo degrincolar...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Tarde- noite.

A saudade já doía. não sabia se era medo. ou angústia. ele podia não voltar. nem telefonar. e se ela ficasse ali. esperasse. e as estações mudassem. olharia pela janela de vidro fosco. que dava para a rua vazia. depois se cansaria. fecharia a cortina amarela. que ele ajudara escolher. num outro ano qualquer. e se encolheria no sofá. ligaria o ventilador. depois o rádio. com o CD que eles costumavam ouvir. quando conversavam. depois se amavam. aí ficavam em silêncio. até conversarem de novo. deixaria os cabelos soltos. para que se espalhassem nas almofadas coloridas. agarraria a própria camiseta. como se estivesse cravando as unhas nas costas dele. e sorriria. até chorar de dor. porque tudo o que ela sentia. naquela hora doía.
fazia calor naquela tarde-noite. ela foi até a cozinha. descalça. o piso avermelhado. estava morno. nem quente. nem frio. acariciava os pés da menina. que abria a geladeira lentamente. como se estivesse fazendo uma força mortal. olhou vagarosamente para o que tinha ali. mas não tinha olhos. para diferenças. por isso pegou a primeira garrafa verde que viu. era um vinho. gelado. como o coração dela. que fora dele. quer dizer. era dela. mas que guardava ele. sentou aos pés da pia. e com os joelhos dobrados. tomou o vinho. que logo desmembrou algumas lembranças. distantes. ou recentes. ela largou o vinho. tocou os olhos. como se quisesse mantê-los fechados. se levantou. apoiou as mãos na mesa. que tinha as frutas que ele gostava de comer pela manhã. não aguentava mais esperar. por um tempo que parecia estar parado. se ele pelo menos ligasse. aparecesse de surpresa. ela estaria ali. como havia prometido. cheia de novidades. intensa de emoções. e pronta.

domingo, 12 de outubro de 2008

O jargão da mulher.

mulher é complicada. é o que dizem por aí. coisa da qual eu sempre discordei. mas ao parar pra pensar. pode ser. simples é que esse ser não é. pense comigo. mulher não vive. compete. o peso é sempre pesado. o cabelo que é colorido demais. as unhas que estão compridas de menos. os homens que faltam. a outra. tão cobiçada. tem culote. e na boca tem bigode. a cama de uma é mais ativa. a da outra é sempre tão normal. pouco criativa aquela. sem contar as roupas. homem não repara. mas a outra vai perceber que o sapato é da mesma cor que a bolsa. e a blusa combina com o detalhe da calça. e é assim. por mais companheiras que sejam. por mais desconhecidas que pareçam. mulher é mulher. aqui. ou acolá. no inglês. no francês. no brasileiro. no estrangeiro. mas é engraçado. como funciona. como aciona o olhar. como é doce. o jeito de falar. mulher nunca tem tempo. mas sempre marca hora em tudo. mulher tem medo de envelhecer. mas nunca dá um parecer. mulher quer filhos. mulher quer tempo. mulher quer cama. mesa. e banho. mulher tem cheiro de flor. mesmo sem prefume. mulher faz falta.
opinião. força. compreensão. pele. e fala. fala. fala. não pára. não cansa. não descansa. tem jeito pra tudo. conhece o mundo. decifra pessoas. comenta atos. desfaz fatos. mas é mulher. e mulher pode tudo. até acordar descabelada. sem maquiagem. e salto. porque é especial. faça chuva. ou sol. janela aberta. ou fechada. mulher é assim. de um jeito simples. mas tão complicada.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

uma caixinha e outra história

Estava ali do lado. No canto mais escuro da sala.
continuava empoeirada. jogada. parecia meio aberta. talvez tivesse quebrado quando foi jogada. no último sábado de outono. ela não queria tocar naquela caixa de novo. talvez se não fosse vermelha. ou se não oferecesse tanto perigo. toda vez que era aberta. transformava qualquer idéia em verdade. e fazia com que a garota. se sentisse a dona daquelas verdades. como se fosse a única a possui-las. mas. haviam milhares de caixas vermelhas dessas por aí. levantou do sofá. foi olhar na janela. a rua estava vazia. como ela. sabia que era por causa da chuva. as pessoas se escondiam. como ela. ficavam protegidas. mas talvez não estivessem sozinhas. como ela. uns dias átras tinha recebido algumas visitas. o que sobrou. foram pratos sujos. copos quebrados. noites acordadas. e algumas risadas. que lhe fizeram tanto bem. era estranho estar ali. por ela. trocaria de país. naquele lugar aconteciam poucas coisas. queria ir pra um lugar maior. conhecer gente diferente. que vive em cabana. que mora no mato. e não tem animais de estimação. ouviu um barulho vindo do computador. era a caixa de e-mail. recebera uma mensagem dele. ahhh. ele fazia tanta falta. o cheiro. os braços. a cama. o papo. mas vivia tão longe. nunca podia vê-la. por isso ela se afastava. e ele não percebia. ela tinha medo de desejar demais. e ele não voltar. por isso aguardava. esperava. roía unhas. escrevia histórias. e ficava sozinha. cada frase que lia. sentia mais saudade. e gostava mais. depois de um tempo. pensava. e se afastava. não podia amar alguém que não era só dela. nem mesmo procurava por ela. era loucura. e apesar de muitas pessoas definirem amor assim. uma coisa louca. ela escolhia todo tempo. a lucidez. seria dele algumas noites. até ele ir embora de novo. e telefonar de vez em quando. então ela tomou uma decisão. teria outro. pertecenria a outro. e foi. seu novo companheiro era chamado solidão. esse que não partiria. esse que não a deixava. esse que ligava todos os dias. e a sucumbia todas as noites. esse que estava ali. e era de alguém assim que ela precisava. alguém que a tornasse prioridade. que a trouxesse segurança. mesmo que não lhe desse felicidade.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

CaOs

Fiquei assim. revoltada. e perplexa. essas eleições acabaram com qualquer esperança possível. existente naquela cidade do interior. o povo. ao invés de mudança. votou na corrupção. esta que estava nítida. como pode? não entendo. de verdade. como é que as pessoas reclamam. e quando podem mudar. escolhem o mesmo caminho. depois voltam a reclamar. e dizer que não podem fazer nada. será que é tão difícil. depois de tudo o que já lutamos pra monopolizar esta arma em nossas mãos. depois de tanta gente morta. torturada. e expulsa da nação. depois de vidros quebrados. nomes trocados. esconderijos. o voto. é assim. vendido. não pensado. depois eu ainda passo noites pensando. e acreditando. que agora as coisas podem ser diferentes. acho que não. se houver alguma transição. vai ser ela pra pior forma possível.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008


"Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta.
A gente cresce, através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia é só mais agradável.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um": duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto.
Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente.
Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém."

Jonh Lennon

P.s:
Faço das dele...as minhas palavras!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Cor e tom


-Vermelho é cor ou tom?
-Vermelho é cor.
-E preto e branco?
-Preto e branco não é cor. nem tom.
-Por quê?
-Porque é regra. oras.
-Que regra idiota. essas coisas não deveriam ser regra. talvez excessão. eu aceitaria. Pink é o quê?
-É tom.
-E por quê?
-Porque sim.
-As cores do arco-íris, são o quê?
-Essas são cores.
-E se eu quiser que seja tom?
-Se você quiser. vai querer errado.
-Como é que se quer errado?
-Quando você quer algo que foge da regra.
-Então quero tudo errado.
-Quer ser fora da lei?
-Acho que é melhor assim.
-Não ter razão é melhor?
-É. acho que sim.
-Acho que você acha errado.
-Quem disse?
-Eu estou dizendo.
-Você diz coisas erradas. eu quero ser fora da lei. porque gosto de liberdade.
-O que você sabe de ser livre?
-Sei que é a melhor sensação do mundo. e isso você não pode dizer que é mentira.
-Posso. claro que sim. você gosta das coisas contrárias. e ser oposto te faz só.
-Quem disse?
-Eu estou dizendo!
-Você só diz bobagens. e diz porque não sabe das coisas. só vive o que os outros querem. e eu não. vivo mais. pertenço a tudo. certo e errado. colorido ou sem cor. olhos abertos e fechados...
-Você está indo longe demais. não se pode mantêr os olhos abertos e fechados. ao mesmo tempo. você diz coisas que foge da ciência.
-O que eu quero com ciência. não preciso provar nada. não faço testes. porque eu quero ser assim. sem regras. sem horários. sem orbigações.
-E você vive de quê?
-Vivo de vida. e isso não é regra. nem destino. é acaso. descaso.

P.s:
Imagens de:
http://www.allposters.com/-sp/Life-Magazine-Posters_i1685726_.htm

domingo, 28 de setembro de 2008

o que você quer?

Ela olhava. pela janela. pela porta. pela fresta. pelo buraco. até que descobriu. pra sentir saudade. nem sequer precisava andar. bastava permanecer. no mesmo lugar. no mesmo ponto. que antes parecia inatíngivel. mas não. não era. ela era atingida por tantas coisas. tantas pessoas. tanto dela mesma. havia algum tempo em que só falava dela. da sua história. dos seus textos. dos livros que havia lido. na verdade. a mais pura. a mais sincera. era que não era ela. eram as coisas. e eram as pessoas. não tinha planos dela. tinha história. mas não era só dela. e isso a tornava na verdade. a única contada por um qualquer. ela era planos de outrora. vida de alguém. palavras copiadas. frases em forma de clichê. medos de vizinhos. músicas da moda. roupas de amigos. não deveria. mas. não tinha porém. nem todavia. era isso. e pronto. acabou. por pouco não acabava. continuava. permanecia. interpretava. deixava as coisas pra lá. até que passassem. e ela enfim. pudesse esquecer. às vezes tinham recaídas. e lembrava. até molhar o rosto. e dormir novamente. era assim. sonhava o que era real. porque se fosse ela. não faria daquele jeito. tampouco diria aquelas coisas. teria ido embora. se não fosse suas adversidades. não gostava de tudo. mas acabava amando. por pouco não fugiu. mas ela. de que fugiria. talvez de si mesma. ou do que fazia parte dela. e era assim. até ouvir a campainha.
-Quem é?
-Sou eu, a Valerie.
-Ah tah. entra.
-Oi. tudo bem?- Valerie.
-Sim. o que você quer tomar?- Ela
-Por que pergunta o que eu quero?- Valerie.
-Porque você escolhe. e eu pego pra nós duas.- ela.
-Escolhe você- Valerie.
-Não sei escolher o que eu...
-Não precisa ser sempre tão receptiva. escolha o que você gosta. isso não vai me fazer te odiar. -Valerie.
-Não é isso. Tô acostumada.- ela.
-Como. não pode ser. você não precisa disso. tornar as pessoas dona de sua vida. essa coisa toda não precisa existir. você era forte.
-Fui sempre igual.- ela.
-E eu não percebi. essa sua forma de se anular com classe. não vale. não tem graça.-Valerie.
-Não precisa rir. nunca fui boa com piadas.- ela.
-Eu sempre gargalhei muito com você.-Valerie.
-Pode ser. não sei.
-É sempre assim. você quer água. mas toma conhaque. porque eu estou com vontade. pára. você já parou pra pensar que as suas escolhas importam mais. principalmente pra quem você ama.-Valerie.
-Estou bem assim. já abri mão de coisas demais. pra voltar átras. e depois me lamentar. que papo idiota.
-Do que você quer falar?- Valerie.
-Do que você quiser...


P.s:
Tentei me afastar. mas deixar as palavras guardadas. as idéias adormecidas. não. não era assim que as coisas deveriam funcionar. tantas vezes me ausentei. talvez de mim mesma. mas isso faz parte de tudo. é como se eu tivesse trancado meu
refúgio.escrever é meu dialógo predileto. por isso voltei. e não quero mais partir. vou ficar por aqui.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Simples

por vezes busquei sentidos. tentei ouvir sons. pintar tonalidades. inventar palavras. outras tantas vezes fechei os olhos. para imaginar ou sonhar. as histórias que já escrevi. ou mesmo as que li. quis dizer frases certeiras. mas não. lembrei das pessoas que conheci. até esquecê-las por um tempo. meu coração palpitava. e senti medo. nada mudaria. pois tudo já estava diferente. antes acreditava no que o mundo me contava. agora traduzo o mundo. encontro sentido no silêncio e na ausência de cores. invento palavras que para o meu eu. fazem sentido. abro os olhos para imaginar e sonhar. encontrei dentro de mim. e tão perto. o que buscava longe e fora. não quero mais conjugar verbos. ou relembrar tabuadas. deixo apenas o que sou. e o que sou não é só. nem particular. a saudade ainda dói. e o meu medo ainda existe. então noto que nem tudo está diferente. agora sei. e o meu saber é a simplicidade. desde o café da manhã. até a hora em que me deito. sei ainda. que minha existência é uma partilha. sou as broncas do meus pais. e a continuidade deles. sou os jogos de futebol que joguei ao lado do meu irmão. e os nossos segredos. sou as noites acordada com minhas amigas. e um pouco das conversas e bebidas que dividimos. sou as férias que passei no sítio de minha tia-madrinha. e os cuidados que tivemos uma com a outra. sou a mulher que fazia caminhadas. e agora se deita com o homem da sua vida. e isso nem é tudo. porque sou. o que ainda quero ser. e tudo isso não é só...

P.S:
Em manutenção.
de idéias.
comportamentos.
e pensamentos.

Em breve voltarei.
pra escrever.
ou traduzir.
palavras.
frases.
e desenhos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

UTA!

UTA! me dá uma uta. era assim que chamava abraço. quando não tinha intenções. quando não tinha tamanho. nem idade. nem namorado. nem macho.
agora era diferente. chamava de abraço. sentia desejo. e esperava. ele vinha. mas não todos os dias. ela fazia planos. e aguardava. com um copo cheio de alguma coisa. forte. ou fraco. bebia. se lambuzava. se embriagava. e ele não chegava. não tocava a campainha. tão logo ela adormecia. depois de umas cenas. ou páginas. ela fechava os olhos. e a porta...

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

quarta-feira.


toda quarta-feira era assim. ela chegava em casa. e ele estava lá. no canto da cozinha. com um copo de vinho tinto nas mãos. camiseta amassada e um jeans desbotado. não chegava perto dela. era como se esperasse ela dizer alguma coisa. ela não se espantava mais. ás vezes levava alguma coisa pra ele comer. outras fingia não vê-lo. mas via. e desejava tanto. a barba por fazer trazia algumas lembranças. os cabelos despenteados ainda assim era belos. tinha sede. mas não era do vinho que ele levava nas mãos. era dele. pensava em pegar as chaves do apartamento de volta. mas tinha medo dele não voltar. não sabia bem o que eles tinham. era um amor de quarta-feira. ele olhava. mas nada falava. ela olhou também. colocou as mãos na cintura. e ficaram ali. sem dizer nada. sem fazer nada. ele tomava o vinho sem desviar o olhar. ela puxou um banquinho. sempre perdia o jogo. falava. aí ele a segurava nos braços. e matava a sede dela...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A verdade,

era assim. um passado. não tão remoto. nem absorto. porque era meu. eu escrevi. eu desenhei. eu contei as histórias. eu esperei. eu sorri. eu chorei. me valho de alguns fatos. que contarei mais adiante. essas palavras postas aqui. são de cunho especial. relevantes. e sinceras.
o tempo passou. mas lembrei-me da minha infância. que não era tão fácil como hoje. mas que me fez ser o que sou. não que isso seja importante. mas posso afirmar. que valeu a pena. todos os segundos. todos as semanas. todos os meses. e anos.
era assim:
até eu ir a escola. minha mãe foi convocada para ficar em casa. cuidar do meu irmão. de mim. e da casa. por isso meu pai trabalhava. em dois empregos. e chegava tarde em casa. mas ainda assim. era especial. o que éramos. meu irmão. um ano mais velho que eu. cuidava de mim. e eu era convidada pro time de futebol dele. e também para as escaladas de muro. essas que valeu algumas marcas até hoje. e quando eu chorava. ele fazia cosquinhas pra eu sorrir. e quando mereciamos algum castigo. meu irmão fugia. me agarrando pelas mãos. e adentrando o quintal de casa. eu tinha medo. por isso. logo me entregava. quando comecei a ir na escola. sentia medo. e chorava também. então meu irmão passou a me levar todos os dias. até a mesa que me sentava. lembro de um dia. quando intrigada minha professora o questionou. por que ele me levava. e esperava por um tempo. só olhando. e sorrindo. ele com apenas 5 anos. disse que eu tinha medo. e ele me protegia. do meu medo e do homem do saco. crescemos assim. ele meu melhor amigo. e eu. a melhor amiga dele. sempre senti ciúmes. das inúmeras namoradas. que ele conquista até hoje. com extrema facilidade. mas sei que uma parte dele é minha. uma parte do amor é só meu. e alguns telefonemas. ainda são só pra mim.
outra coisa que me lembro. é do meu pai. ainda sujo do trabalho. ao pisar em casa. eu corria pros braços dele. e pedia churros. naquela hora. que não se encontra isso em lugar nenhum. ele voltava pro carro. e saíamos procurar. às vezes. eu falava que tinha vontade sem ter. só pra podermos conversar. e eu ouvir a voz grave dele. depois voltavamos pra casa. ele esperava eu dormir. pra poder apagar as luzes. depois. quando virei mulher. ele sempre quis saber. quis conhecer. mas nunca escondeu o ciúmes que sentia da princesa dele. certa vez ele me fez prometer. que se um dia eu casasse. e sofresse. eu teria que contar. falar pra ele. porque ele iria me salvar. eu prometi.
minha mãe. o cheiro particular. a risada estrondoza. e os cabelos lisos. que ela sempre tentou tornar crespo. as broncas. e as compras. como eu desejo ser como ela. tão simples. e boa. ela e minha tia-madrinha. são até hoje. um espelho. um modelo.
todos meus segredos. eu contei. todos os meus amores. apresentei. e todos os dias vivi.
não sei porque nunca mencionei minha família por aqui. tenho tanta sorte. porque minha vida toda. eles estavam ali. esperando. levando. buscando. ensinando. mostrando. cuidando. sorrindo. chorando. comigo. por mim.
sei que tenho sorte. por tudo o que vivi. e agora. distante. mas não tão longe. faz tanta falta. o cheiro. a voz. o abraço. até mesmo as controvérsias.
todas às vezes que fiz. e eles discordaram. não deu certo.
todas às vezes que fui. e eles não foram. não foi completo.
todos os dias eles foram e são. verdade. amor. sorrisos. telefonemas. cartas. saudade. afeto.

Obrigado a todos pela atenção. gostaria apenas que soubessem. o quanto é bom amar. mas melhor é amar alguém que te ama. antes de saber qual sua cor. ou face. e ainda supera a vida. ao teu lado. chora com você. torce com você. e sorri com você. e acima de tudo. está com você em todos os lugares. em todos os sentidos. pode parecer clichê. ou auto- ajuda. mas é minha verdade. que divido com o mundo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

papel


colocou os óculos de sol. eles defendiam os olhos dela. dessa vez não sairia de all-star. usaria chinelos. branco e roxo. naquele dia. particular. e previsivel. ela atuaria. seria atriz principal. ou coadjuvante. não se importava. desceu até a garagem. a vaga que ela tinha. era horrível. mas o carro ficava guardado. protegido. como se isso fosse importante. preferia andar a pé. via mais gente. observava outras histórias. sorria pra alguns. abaixava a cabeça para outros. e corria ao passar em frente as construções. mas mesmo assim ia aos lugares andando. dessa vez saiu de casa. com destino. iria a uma loja de esportes. compraria algum artigo. não sabia bem qual. mas precisava mudar a rotina. estava parada. e se preocupava. estacionou o carro. desligou o rádio. mas desistiu do esporte. tinha uma loja ao lado. vendia almas. sim. era isso que a placa anunciava. ao entrar na loja. tropeçou num tapete de boas vindas. ficou vermelha. mas continuou firme. no balcão uma graciosa moça loira preguntou.
-O que você deseja?
-Não sei.
-Você precisa de alma?
-Não sei.
-Acho que posso te ajudar.
as mãos da moça tocaram a sua. e a puxaram para o outro lado da loja. que não era sombria. era até alegre. as paredes eram amarelas. e o teto lilás.
-Acho que essa lhe serve.
-Onde eu posso experimentar?
-Vá até ali. escolha um algodão. e molhe na água. depois passe ela do lado esquerdo do peito. aguarde alguns segundos. e veja se gosta.
ela foi até o outro lado da loja. escolheu um algodão verde. e fez o que a moça lhe mandara fazer. esperou exatos 9 segundos. até que sentisse. era algo diferente. parecia embriagada durante alguns minutos. mas depois olhou no espelho. e gostou. não sabia ao certo o que lhe passava na cabeça. mas por lá ouvia-se coisas boas.
-É acho que vou levar essa.
-Não quer experimentar mais nada?
-Não. sou decidida. experimentar demais só confunde a gente.
-Tudo bem.
-Quanto é?
-Como?
-Quanto eu lhe devo?
-Ahhh...você não entende ainda?
-O quê?
-A alma não é paga com dinheiro. você comprou. e paga como achar que deve.
-Não entendi.
-Você paga com uma ação. pode ajudar alguém a atravessar a rua. ou se achar melhor. salve alguém da morte. o tamanho do pagamento. é a gosto do cliente. quando sua dívida for paga. eu saberei. até logo.
saiu da loja desconcertada. mas com uma alma nova. limpa. pensou em como pagaria. tantas pessoas precisavam de ajuda. outras tantas coisas poderiam ser feitas. pegou o carro. e voltou pra casa. listou quem gostaria de ajudar. depois de algumas horas. teve um estalo. sim. um estalo. foi até uma creche do outro lado da rua. e olhou para as crianças. levaria alguma por um dia. ao passar pela porta. uma garotinha de no máximo 3 anos. com cabelos encaracolados. e pele morena. sorriu. e disse.
-tia. estava te esperando.
era ela. a forma de pagamento. pegou a menina no colo. e o abraço que recebeu. foi forte. como algum tempo não sentia. levou a menina dali por um dia. pagou a alma. e ganhou uma filha. sim. ela adotou a menina. depois daquele sorriso. e do abraço. não consequiria esquecê-la. foi amor. a primeira vista. avassaldor. intenso. prudente. certo. depois de algum tempo. percebeu que naquele dia. não comprou uma alma. apenas restaurou a sua. mudou de vida. olhou para os lados. notou a rua. tocou o mundo. e amou. um amor eterno. de mãe. então começou a atuar. ganhou um papel na vida. que não era mais secundário. agora. seria estrela. mas não sozinha. tinha família. tinha sonhos. fazia viagens. tirava fotos. participava do balé. e fazia contas de matemática. foi assim. que ela ficou famosa. mas não era uma celebridade qualquer. era uma musa. uma heroina. era mãe.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Péssimo hábito.

ela tinha um péssimo hábito. falava demais. acreditava estar certa o tempo todo. e se intrometia nas escolhas. de todos que estavam perto dela. pensava ajudar. mas ás vezes magoava. falava verdades. que eram dela. o azul podia ser verde. se ela quisesse que fosse. mas não para todos. e ela se entristecia. certa vez. discutiu. mas não mudou. afastou algumas pessoas. e sentia falta delas agora. não sabia o que fazer. poderia pedir desculpas. mas isso não apagaria o que tinha dito. não era fácil pra ela também. queria ficar quieta. mas quando percebia. falava. e se impunha. e brigava. e mais vez chateava. era um hábito. um jeito. um medo. não queria parecer omissa. precisava ser. e achava que daquele jeito. seria. mas não era. não respeitava diferenças. nem crenças. e agora sentia saudades. alguns se acostumavam. outros iam embora. ela se sentia só. quando seus telefonemas. eram ignorados. e suas cartas não respondidas. queria voltar no tempo. e se omitir. mas não fazia por mal. era o que pensava. sentia tanta necessidade. de mostrar seu ponto de vista. mas não aceitava opostos. fechava os olhos. respirava fundo. continuava. tentava convencer. mas depois. quando chegava em casa. percebia que nem ela acreditava mais...

P.s: Dedico esse texto a todos que conviveram com meu péssimo hábito. Aos meus amigos, peço desculpas, seja lá onde vocês estejam agora. No sofá, na cozinha, na cama, no jardim, na mureta, em outro país, aqui ao lado, tanto faz.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Um pedido. uma passagem.


Ouvia a chuva lá fora. olhava pela janela acinzentada. segurava a velha caneca. ainda estava usando o pijama da noite passada. o moletom amassado. os cabelos presos. e ela sozinha. lembrou-se. depois fugiu. as meias que ela usava. ainda eram coloridas. como nos velhos tempos. o café ainda era forte. e os olhos pequenos. tomaria uma bebida depois. mais tarde. quando a saudade estivesse mais forte. menos suportável.
-Você bebe demais.- disse ele uma certa vez.
-Você é que é exagerado.- respondeu ela.
-Acho rídiculo. só isso.-bravejou ele.
-Pois eu não. acho que se você pode beber. eu também posso. qual a diferença?-perguntou ela instintiva.
-eu sou homem. essa é a diferença. mulher tem outro nível. tem que ser delicada. tem que pintar os olhos. tem que sorrir natural. tem que falar bastante. reclamar demais. dar soluções óbvias. que homens não vêem. essa é a grande diferença.-respondeu ele.
-que machismo idiota. mulheres não tem que estar sobre o salto alto. o tempo todo. ás vezes também precisamos fazer merda. falar besteiras. chamar atenção. não resolver problemas. ficar desarrumada. perder o controle.- disse ela. como se quisesse ensiná-lo.
-vocês podem perder o controle. mas a classe não. essa coisa de feminismo exagerado é hipócrita demais. mulheres não são iguais homens. tem coisas de homem. e outras de mulher. não venha me falar que sou machista. sou realista. essa é a diferença. homens devem carregar pesos. mulheres carregam sacolas de shopping. homens devem cortejar. homens devem se sentir forte. mesmo que as mulheres. mostrem toda hora. que elas são as mais fortes. e eu até concordo com isso.- respondeu ele. mostrando um ponto de vista particular.
-você sabia que hoje em dia. mulheres também carregam pesos. são mecânicas. dirigem caminhões. sustentam casa?- disse ela irritada.
-Mas que graça tem? não gosto de mulheres musculosas. parecem homens. e ainda me sinto hetero. acho sim. que mulheres sustentam casa. e é isso que me referi. quando disse que vocês são mais fortes que nós. mas gosto de olhar pra você. porque vejo delicadeza. mãos pequenas. cheiro suave. pele macia. seios deliciosos. olhar avassalador. e sei que quando a luz queimar. você vai me pedir pra trocar. mesmo que você saiba fazer isso. melhor que eu. talvez. e vou te pedir pra arrumar minha camisa. antes do trabalho. porque você leva mais jeito nisso também. depois chegaremos no mesmo horário. você vai falar durante vários minutos. até perder o fôlego. eu vou te convidar pra tomar banho comigo. e então seremos homem e mulher.
-acho que ninguém é igual mesmo. e quanto a trocar a luz. acho que você pode fazer isso. é tão chato ter que fazer isso.- sorriu ela. como se quisesse mudar de assunto.
verificou a caixa de mensagens. ele havia escrito. alguma coisa. ela hesitou. já não conseguia esquecer ele. mesmo que dançasse com outros. ou se deitasse em outras camas. ou mesmo se entregasse a outros braços. no outro dia. ela sempre se sentia um lixo. um objeto. gostava com ele. o toque. as mordidinhas nas orelhas. os beijos no pescoço. o corpo quente. o cabelo desajeitado. o cheiro de homem. a pele suada. os olhos que a observavam. a camiseta branca. o tênis sujo. o ciúmes que ele sentia. as críticas que ele fazia. as brincaderas que os dois inventavam. as tardes assistindo jogos de futebol. resolveu que abriria. e depois não responderia.
"Minha pequena garota. ainda sinto sua falta. o tempo por aqui é diferente. faz frio de dia e de noite. gostaria de dividir meu edredon com você. esquentar meu corpo no seu. e acordar com seu beijo. ainda quero que você venha morar comigo. a gente pode se casar. se essa é a condição. depois de tanto tempo ao seu lado. não vejo graça em outras mulheres. elas não tem o mesmo cheiro. e nem reclamam de tudo como você. dentro de algumas horas. mandarei uma passagem pra você. esse é o meu pedido de casamento. meu desejo de te ter novamente. não quero cometer os mesmos erros. estarei te esperando no aeroporto. caso você não apareça. eu tocarei sua campainha pela manhã. e se ainda assim. você não tiver certeza. ficarei sentado na porta de sua casa. até você se convencer. e me aceitar de volta. não é qualquer um que encontra a pessoa de sua vida. tão jovem. como eu e você. acho que você vai ler isso depois de tomar café. na sua velha caneca. com as meias coloridas para abafar o frio. que o chão gelado provoca. mais tarde talvez beba algo mais forte. e depois vai se deitar no sofá. escrever alguma coisa. ou ler um livro. e só fará uma pausa. pra ir ao banheiro. ou comer um chocolate. ainda me lembro dos seus olhos negros. e sua boca pequena. e preciso ter você...
um beijo.

não respondi. arrumei minhas malas. e fui encontrá-lo. em outro continente. também estava cansada de cometer os mesmos erros. procurar em outros homens. o que só encontrava nele. daria outra chance. pra ele. e pra mim. sentiria medo. mas seria corajosa. eu sabia. e ele também. pois como já disseram por aí. quem ama. sabe das coisas.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

mundo


e se eu quiser partir. vou embora. vou ser astronauta. vou nadar no Mar Morto. vou ensinar borboletas. vou mergulhar com baleias. vou dormir com a luz acesa. vou acordar a noite. vou falar a língua do surdo. vou dançar tango. vou ser qualquer coisa. desde que seja diferente. independente. sorridente. estridente. impertinente. essa coisa de moda. apartamento. chão. e sorvete. não tem mais graça. quero ter outro estilo. morar no campo. viver nos ares. comer jabuticaba no pé. e esquecer. talvez eu conheça um pôrto. mas não quero ficar atracada. nem deixar fortes marcas. porque sou assim. sutil. venho. e vou. não cultivo jardins. não tenho cachorro. mas tenho um amor. esse que espero. e procuro. nas noites mais claras. e nos dias mais escuros. encontro bares furrecas. durmo no mato. e grito no ar. vou voar. pro continente de gelo. onde só tenha neve. flocos brancos. vento serrano. vou inventar algumas mágicas. e serei livre. como o vento. que ninguém prende. mas todo mundo sente. tocarei campainhas. comerei bolo quente do sítio. depois vou lutar com leão. roubar pão. tocar gaita. escrever rimas. ler alguns livros. até chegar na minha casa. que não tem rua. nem número. fica num lugar que chama mundo...

Certeza

Como a saudade. uma frase perdida. uns quilômetros a percorrer. tanta coisa. mais nada. fiz versos. escrevi poemas. falei de minhas vedades. vivi algumas mentiras. e pouca coisa mudou. a noite. o dia. a tarde. deitei no chão gelado. desenhei pessoas. rabisquei o nome dele.
-Amanhã você vem me ver?- disse ela no telefone.
-Acho que sim.- disse ele do outro lado da linha.
-Preciso de alguma certeza.
-Por quê?
-Porque sou assim. cheia de coisas certas.
-Mentirosa.
-Não. isso não é verdade.
-Claro que é.
-...
-Você me disse uma vez que seria minha pra sempre. e foi embora.
-Mas voltei...
-E agora disse que é verdade.
-Mas é.
-Espero que sim. porque eu fiquei no mesmo lugar. ouvi suas promessas o tempo todo. e não amei mais ninguém.
-Mas teve outras mulheres.
-Nunca disse que amei elas.
-E daí?
-Você disse que amava pra outros homens. e eu fiquei aqui. desejando que fosse mentira sua.
-É eu menti.
-Eu sabia que era mentira. senão tinha ido embora.
-Pra mim foi verdade. eu e você. só precisava ter certeza.
-Agora você tem?
-Sou uma mulher de certezas. só preciso confirmar primeiro.
-Ahan...
-Por que você aguardou tanto tempo?
-Porque não senti califrios com outra mulher. tentei mas não senti. porque via você nelas. e a comparação que eu fazia. as deixava com pontos negativos.
-Mas eu sou mentirosa. não sou?
-Ás vezes. mas não escolhemos algumas coisas. estar com alguém não é como ir a padaria. nem como comprar carro.
-Por quê?
-Se você não gosta do pão. ou do carro. troca. e compra outro. muda de lugar. amplia horizontes. mas quando se trata de pessoas. e você ama alguém. não consegue trocar. sempre volta no mesmo ponto.
-Que ponto?
-O ponto que te satisfez. o ponto que te fez passar noites acordados. o ponto que te fez sonhar. o ponto que te fez ver todas as pessoas com a mesma cara.
-Você acha essa obsessão normal?
-Não. talvez tenha ficado doente. talvez tenha que evoluir. ou crescer. por enquanto sou o menino que brincava com você. e cantou pra você antes de te pedir em namoro.
Fiquei sem palavras. eu havia errado durante agum tempo. tinha mentido. e me enganado. ele não.
-Amanhã eu vou te ver.- disse ele.
-Tá...
-Que horas?
-Pode ser a noite.-disse ela.
-Thau.
-Tchau.
outro dia ela queria escrever uma carta. pra ele. mas não sabia muito bem o que dizer. já tinha dito tanta coisa. durante tanto tempo. e agora. cheia de si. com tanta certeza. a caneta escorregava. as palavras evacuavam. as linhas entortavam. frases feitas. música. tudo já havia escrito pra ele. ele gostava de levá-la pra casa dele. lá podiam convresar. deitar na cama. trocar suspiros. entrelaçar os braços. desvendar o corpo. ela acariciava os cabelos ondulados dele. ele fechou os olhos. ela pensava em como seriam daqui uns anos. ele sonhava com a boca dela. ela fechou os olhos. precisava dormir também. mas tinha medo. e se acordassse sem ele. e se a mentira agora não fosse mais dela. mas do destino? ela não teria outra chance. nem seuqer contaria história. não morreria. mas viveria sem certeza.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Um inteiro sem metades.


Nunca tive certeza de muitas coisas. mas tinha algo que sempre soube. nunca fui uma mulher de metades. nunca soube sorrir de algo meio engraçado. nunca fui metade de alguém. nunca tive meio amigos. nunca gostei de meio tom. nunca ouvi metade de uma música. nunca senti meio amor.
Toda vez que me apixonei foi algo grandioso. e por isso toda vez que alguém me traiu. de alguma forma. namorado. amigos. primos. irmão. programas. compromisso. promessas. a ferida foi inteira. e doeu. e chorei. e passei noites achando que ia morrer. não morri. mas nunca esqueci. não fingi que nada tinha acontecido. porque não sei ser só meio sincera. tampouco digo meias verdades. por isso sou nervosa. sou estourada. sinto a dor de alguém que amo. como se fosse minha. sinto a raiva de um amigo. como se a briga fosse comigo. deixo de comer pra não ver algum amigo com fome. acordo de madrugada. ou não durmo. pra não deixar um irmão sozinho. vivo relações que não são minhas. porque no fundo fazem parte de mim. sorrio de histórias da qual não fiz parte. comemoro vitória de amigo meu. e fico feliz. a minha maior alegria. é ver alguém que amo alegre. e ponto. talvez vírgula. não tenho certeza. lembro de alguns dias. em que jurei amor eterno. e alguém foi embora. disse que não estava preparado. outras vezes me desfiz de sobrenome. ou sangue. só pra dizer que outra pessoa. era minha família. nunca tive códigos. sempre deixei as portas abertas. minha casa tinha um nome. mão joana. ou tia fulana. não importa. lavei minha alma de preconceitos. mas mesmo assim não entendi nada. porque algumas pessoas deram de costas. fecharam os olhos. e a boca. não penso que fui eu. porque fiz tudo. e mais. não é exagero. nem piedade. é pura. e simples. verdade. inclusive acreditei que podia ser de outro planeta. será que o erro é meu? pode ser. afinal nem todos são inteiro. alguns são meio amigos. e te chamam de colega. outros são só de uma cor. e eu gosto de colorido. tem gente que acredita que não vale a pena. eu desmenti essa verdade. penso em um todo. mesmo que seja só meu. pegaria ônibus. avião. metrô. só pra dizer oi. e sinto saudade. de outros que eram conhecidos. não tenho idéias. nem sou sempre legal. acho que as melhores pessoas são cruas. e algumas vezes se contradizem. mas ninguém é perfeito. não digo que sou. mas não sei fingir. minha vida é uma peça. baseada em fatos reais. e quando invento coisas. elas se tornam carnais. meu abstrato é tão palpável. e mais uma vez digo. repito. interpreto. traduzo. abduso. e convido. sou eu. prazer é meu.