segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O lado errado da vida certa.

Quando ela tinha apenas três anos, lembra-se até hoje, depois de vinte anos passados, que numa bela manhã, encontrou sua mãe aos prantos, desolada, e jogada no chão da cozinha.
-Mamãezinha, tá dodói? Eu vou chamar o papai!
-Não filhinha, seu pai foi embora.
Ela achou que ir embora, era o que ele fazia todo dia de manhã, ao sair para o trabalho, depois ele voltaria. Mas naquele dia, ele não voltou, nem nos próximos meses, nem nos seguintes anos. Hoje, era o aniversário dela, faria 23 anos. Recém formada em direito, estudava para os concursos públicos. Ás vezes sentia falta de ter um pai.
-Mãe, por que o papai foi embora?!
-Mais uma vez esse assunto Dani?!
-Pô, ele é meu pai. Preciso saber se aconteceu alguma coisa. Queria encontrá-lo, perguntar o por que da ausência.
-Seu pai era bom, mas se perdeu no jogo, e na vida boêmia. Um belo dia, me disse que não queria mais os compromissos e responsabilidades, saiu por aquela porta, e nunca mais o vi. Pronto, você já conhece essa história.
-Vou encontrá-lo.
-O quê? Do que você precisa?! Eu já não te dou o suficiente?!
-É mais que isso, preciso saber se foi minha culpa.
No outro dia de manhã, levantou-se, colocou os pés no chão gelado, olhou em volta e estava decidida. Precisava de ajuda, ligou para um amigo. Quinze minutos depois, seu celular vibrava na cômoda.
-Vamos Dani?
-Estou saindo, me dê uns minutinhos Gui.
Ela saiu, entrou no carro dele, ele a beijou, apenas um selinho. Tinham sido namorados, mas ele estava na faculdade, e queria aproveitar o tempo e as festas. Ela não podia esperar, muito menos aceitar. Mas ele, era a única pessoa em que ela confiava e contava. Depois de três anos de namoro poucos amigos lhe restaram.
-Pra onde vamos?
-Não faço a menor idéia, podemos ir à polícia, ou em algum hospital.
E lá se foram, rodaram por tudo, procuraram em todos os lugares possíveis. Ele nunca havia sido preso, nem estivera internado. Infelizmente, ela só sabia o nome dele, e lembrava-se de alguns traços, como uma marca na sobrancelha e a barba falha.
-Vamos embora Dani, já está tarde. Acho que você não precisa fazer isso, vai sofrer mais.
-Pode ir se você quiser, preciso mesmo ficar sozinha.
-Não vou te deixar sozinha, estamos longe de casa.
-Você já me deixou sozinha Gui, quando me deu um fora. Só liguei pra você, porque não conheço muitas pessoas.
-Eu te amo, só pedi que esperasse um pouco. Tenho que viver, mas você sabe que é a mulher da minha vida, o resto é diversão.
-Vou fingir que não ouvi isso. Você é um moleque, que começou a sair ontem, e não sabe bem o que quer. Você é imaturo, eu fazia planos porque era uma tola. Preciso encontrar meu pai, essa cidade não é tão grande. Preciso entender o por quê dele me abandonar. Não me lembro de ter feito nada, só que eu deixava minhas bonecas esparramadas, e lembro que um dia antes dele não voltar, ele culpou minha mãe, pela minha falta de organização.
-Não foi culpa sua, você é especial, diferente. E eu sei disso, só não peço pra voltar, porque você é orgulhosa demais. Prefiro tentar devagar.
-Chega desse papo, vai embora, você já me cansou.
Ela virou as costas, e entrou num boteco, só havia homens ali, o cheiro forte de suor a deixou atordoada. Caminhou até o balcão sobre olhares curiosos, desviava das pessoas, porque no fundo sentia um pouco de vergonha e nojo daquele mundo.
-Por favor, uma água!
Saiu dali depressa, encostou-se na parede descascada do bar, eles gritavam muito lá dentro, de repente, viu pessoas saindo correndo, e outras comn tijolos e garrafas nas mãos. Correu para o lado oposto, assustada, quando uma m~]ao suja a puxou para uma portinha escura.
-Não tenho dinheiro, por favor, não faça nada comigo.
-Acalme-se, só quis lhe ajudar. Uma briga de bar é sempre muito perigosa.
-Nossa você fala bem para um mendingo.
-Não fui sempre assim.
-Ah, entendo senhor. O mundo dá voltas, nunca pensei que estaria aqui também.
-Por que chegou aqui então?
-Procuro um homem chamado Carlos Diniz, é muito importante. Mas desisti, ele sumiu do planeta.
-Olha, acho que sei quem é.
-Verdade? Onde posso encontrá-lo?
-Ele morreu, foi algo estranho. Éramos companheiros em um escritório de advocacia, nos perdemos no jogo, depois nas drogas, gastamos tudo o que tínhamos com mulheres, até que perdemos o controle. Largamos nossas famílias, e chegamos aqui, na rua.
-Não pode ser, ele era meu pai, e ...e...
-Ele foi morto enquanto dormia, quando cheguei perto espumava pela boca, estava branco como papel. Fugi do lugar, era problemas demais para um mendingo, pderiam achar que eu tinha feito algo.
Empurrou aquele homem, e correu, correu, correu. Até chegar ao ponto de ônibus, sentar ali naquela cadeiras duras e frias. Chorava como uma menininha de três anos, doía tanto. Não sabia explicar, olhava ao redor, precisava tanto de alguém. Estava com medo, o celular começou espernear no bolso.
-Alô?
-Onde você tá Dani, é o Gui.
-Estou aqui no ponto de ônibus, perto daquele bar.
-Está chorando? Espera que eu vou te encontrar.
Ela ficou ali. sozinha. perdida. e mal compreendida. Será que era o destino? A vida? O tempo?
Qualquer coisa que fosse, ela não entenderia.

9 comentários:

D.Ramírez disse...

Todos sabem o quanto hoje um blog é visto. Só não vê editores de editoras de livros. Se vissem, nossa, teriam best sellers aos montes, com leitores idem. Pq talentos tem, de monte, como você. Eu iria continuar lendo por aqui, mas leria no impresso tbm.
Adorei!
Besos

Taynar disse...

Nossa...

Adorei.
Mas não perdoaria o Gui, ou entenderia qualquer coisa.
Certas coisas a gente só manda pro inferno.

Beijos, moça

Olavo disse...

Belo texto..em certos momentos me vi nele..com meu pai indo embora..e eu sem saber o por que..
Parabens lindo mesmo
beijão

meus instantes e momentos disse...

Como sempre, muito bom...
Maurizio

João Lenjob disse...

Gostei!! Bastante!! Beijos!!!

João Lenjob.

Germano Xavier disse...

Jaque,

confesso que fiz uma leitura superficial, pois estou aqui terminando um relatório pra hoje.

Típico seu, com seu relatos-Joões, relatos-Maria, que são as verdadeiras e maiores histórias do mundo.

Um carinho.
Continuemos...

o que me vier à real gana disse...

Olá, boa tarde!

Este é outro blog k vale a pena. Parabéns!

Flávia disse...

Isso é totalmente um roteiro. Deu pra sentir as pesonagens...

Talvez perdoasse o Gui. Talvez.

Beijos!

MADRUGADA... disse...

Belissimo.