terça-feira, 9 de setembro de 2008

Um pedido. uma passagem.


Ouvia a chuva lá fora. olhava pela janela acinzentada. segurava a velha caneca. ainda estava usando o pijama da noite passada. o moletom amassado. os cabelos presos. e ela sozinha. lembrou-se. depois fugiu. as meias que ela usava. ainda eram coloridas. como nos velhos tempos. o café ainda era forte. e os olhos pequenos. tomaria uma bebida depois. mais tarde. quando a saudade estivesse mais forte. menos suportável.
-Você bebe demais.- disse ele uma certa vez.
-Você é que é exagerado.- respondeu ela.
-Acho rídiculo. só isso.-bravejou ele.
-Pois eu não. acho que se você pode beber. eu também posso. qual a diferença?-perguntou ela instintiva.
-eu sou homem. essa é a diferença. mulher tem outro nível. tem que ser delicada. tem que pintar os olhos. tem que sorrir natural. tem que falar bastante. reclamar demais. dar soluções óbvias. que homens não vêem. essa é a grande diferença.-respondeu ele.
-que machismo idiota. mulheres não tem que estar sobre o salto alto. o tempo todo. ás vezes também precisamos fazer merda. falar besteiras. chamar atenção. não resolver problemas. ficar desarrumada. perder o controle.- disse ela. como se quisesse ensiná-lo.
-vocês podem perder o controle. mas a classe não. essa coisa de feminismo exagerado é hipócrita demais. mulheres não são iguais homens. tem coisas de homem. e outras de mulher. não venha me falar que sou machista. sou realista. essa é a diferença. homens devem carregar pesos. mulheres carregam sacolas de shopping. homens devem cortejar. homens devem se sentir forte. mesmo que as mulheres. mostrem toda hora. que elas são as mais fortes. e eu até concordo com isso.- respondeu ele. mostrando um ponto de vista particular.
-você sabia que hoje em dia. mulheres também carregam pesos. são mecânicas. dirigem caminhões. sustentam casa?- disse ela irritada.
-Mas que graça tem? não gosto de mulheres musculosas. parecem homens. e ainda me sinto hetero. acho sim. que mulheres sustentam casa. e é isso que me referi. quando disse que vocês são mais fortes que nós. mas gosto de olhar pra você. porque vejo delicadeza. mãos pequenas. cheiro suave. pele macia. seios deliciosos. olhar avassalador. e sei que quando a luz queimar. você vai me pedir pra trocar. mesmo que você saiba fazer isso. melhor que eu. talvez. e vou te pedir pra arrumar minha camisa. antes do trabalho. porque você leva mais jeito nisso também. depois chegaremos no mesmo horário. você vai falar durante vários minutos. até perder o fôlego. eu vou te convidar pra tomar banho comigo. e então seremos homem e mulher.
-acho que ninguém é igual mesmo. e quanto a trocar a luz. acho que você pode fazer isso. é tão chato ter que fazer isso.- sorriu ela. como se quisesse mudar de assunto.
verificou a caixa de mensagens. ele havia escrito. alguma coisa. ela hesitou. já não conseguia esquecer ele. mesmo que dançasse com outros. ou se deitasse em outras camas. ou mesmo se entregasse a outros braços. no outro dia. ela sempre se sentia um lixo. um objeto. gostava com ele. o toque. as mordidinhas nas orelhas. os beijos no pescoço. o corpo quente. o cabelo desajeitado. o cheiro de homem. a pele suada. os olhos que a observavam. a camiseta branca. o tênis sujo. o ciúmes que ele sentia. as críticas que ele fazia. as brincaderas que os dois inventavam. as tardes assistindo jogos de futebol. resolveu que abriria. e depois não responderia.
"Minha pequena garota. ainda sinto sua falta. o tempo por aqui é diferente. faz frio de dia e de noite. gostaria de dividir meu edredon com você. esquentar meu corpo no seu. e acordar com seu beijo. ainda quero que você venha morar comigo. a gente pode se casar. se essa é a condição. depois de tanto tempo ao seu lado. não vejo graça em outras mulheres. elas não tem o mesmo cheiro. e nem reclamam de tudo como você. dentro de algumas horas. mandarei uma passagem pra você. esse é o meu pedido de casamento. meu desejo de te ter novamente. não quero cometer os mesmos erros. estarei te esperando no aeroporto. caso você não apareça. eu tocarei sua campainha pela manhã. e se ainda assim. você não tiver certeza. ficarei sentado na porta de sua casa. até você se convencer. e me aceitar de volta. não é qualquer um que encontra a pessoa de sua vida. tão jovem. como eu e você. acho que você vai ler isso depois de tomar café. na sua velha caneca. com as meias coloridas para abafar o frio. que o chão gelado provoca. mais tarde talvez beba algo mais forte. e depois vai se deitar no sofá. escrever alguma coisa. ou ler um livro. e só fará uma pausa. pra ir ao banheiro. ou comer um chocolate. ainda me lembro dos seus olhos negros. e sua boca pequena. e preciso ter você...
um beijo.

não respondi. arrumei minhas malas. e fui encontrá-lo. em outro continente. também estava cansada de cometer os mesmos erros. procurar em outros homens. o que só encontrava nele. daria outra chance. pra ele. e pra mim. sentiria medo. mas seria corajosa. eu sabia. e ele também. pois como já disseram por aí. quem ama. sabe das coisas.

6 comentários:

Guru Martins disse...

..."quem ama sabe das coisas"...
ou não sabe de nada,
mas acredita piamente
no mistério e isso vale
tudo, alás, é tudo que vale.

bj e bem vinda!!

Alice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alice disse...

Retribuindo a visita que vc fez ao Cosmic, cá estou. E li o texto e vi o reflexo de uma geração que se foi e de outra que recomeça. Mas, como o texto deixou claro...

"quem ama. sabe das coisas."

(Jaque Lima)

Bjs e valeu por me ler tb.

Jaque Lima disse...

quem ama sabe das coisas...é algo que a querida camilla tebet disse...e com mta sabedoria!!!

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Jaque...o texto prende mesmo sendo grande, isso é que chamo de valer a´pena...bjo...bom final de semana e valeu pela visita...

Mariah disse...

o amor deixa a gente com medo e com o tempo a gente acaba perdendo a coragem de atravessar um oceano se for preciso para beixar o amor!

beijos