segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A espera

estava sentada naquela mesa desde as oito da manhã. fazia cálculos absolutos. que pareciam absurdos. e desnecessários. mesmo que fizesse tanta diferença. queria mudar de emprego. de profissão. de país. de planeta. mas sabia não poder. não agora que esperava pelo primeiro filho. se chamaria Gabriel. sempre quis ter um filho. e se fosse homem. se chamaria Gabriel. gostava da musicalidade do nome. não que achasse especial. ou tivesse algum significado importante. era meramente um gosto próprio. o pai da criança estava em alguma sala. de algum prédio. fazendo as mesmas contas imbecis que ela. que vida era a dela. e a dele também. haviam se casado cedo. quando estavam na faculdade. ela tinha 19. e ele 25. passados doze anos. perdeu a química de corpo. ou a cor.eram bons amigos. mas logo apareceu a barriga. num descuido de sábado a noite. tinha sido especial. ficaram tanto tempo sem nem se olhar muito bem. até que ele a procurou. e ela se rendeu. e pronto. foi assim que aconteceu. sobre o filho. no começo ele estranhou. pensou. repensou. depois aceitou. renegou. e aceitou de novo.
-Não estamos pronto para um filho, e você sabe disso.
-Essas coisas acontecem.
-Pois não deveria. Onde você estava com a cabeça?
-No mesmo lugar que estava a sua. Alias eu fiz sozinha, o filho é meu.
Ele se calou. e nunca mais disse nada a respeito. afinal era dele também. ela já estava de sete meses. e com um barrigão. entraria de férias em alguns dias. ficaria em casa. com os pés inchados pra cima. e matado as vontades que ela inventava. às vezes cantava pro filho. e falava em outras línguas com ele. certa vez contou até história pra ele. era estranho. ser dois em um. já tinha estado nos braços do marido. e disseram ser um só. mas agora era real. tinha um serzinho ali. que comia tudo o que ela comia. bebia tudo o que ela bebia. ouvia tudo o que ela ouvia. e sentia tudo que ela sentia. era bom ser uma coisa só. amar. isso sim era amar. mal sabia qual a carinha que ele teria. tampouco se andaria logo. ou qual seria sua primeira palavra. e mesmo assim o amava. via sentido nas coisas por causa dele. porque ele faria parte daquelas coisas. agora já não queria mais se mudar. ou parar. percebeu que queria ficar ali. ao lado dele. com ele. por ele. era uma futura mãe. olhou para a fotografia ali. em cima da mesa dela. estava com a os pais. esboçou um sorriso. e pensou que gostaria de ser pelo menos parte do que eles foram. pra ela. segurou a foto nas mãos. sentiu saudades. depois colocou onde estava antes. e continuou as contas absolutas...

12 comentários:

Francisco Castro disse...

Olá Jaque, gostei muito do seu blog. Os seus post são muito bons. Continue assim.

Parabéns!

Abraços

Germano Xavier disse...

O começo do texto me remeteu a uma história de uma mulher linda que conheço. Foi assim essa parte da vida dela. E as contas foram feitas para matar os homens, assim como as cidades, como diria Goethe.

Um carinho, Jaque.
Continuemos...

D.Ramírez disse...

Alguns homens sempre acham que nunca é hora para ter filhos e eu me incuia nesses até ter. Depois me perguntei pq nao tive antes..rs
Mas uma coisa é para sempre: Contas hahaha
E sempre aumentam....se analizarmos, acho que nem o investimento que seja rende mais que contas hahahaha

Beslo texto, muito mesmo...

Besos

Flávia disse...

Interessante como as mulheres vêem, descrevem - e sentem - a maternidade. Eu sempre quis não depender da decisão de ninguém para ser mãe, a não ser da minha. Mas se puder escolher, escolherei criar meu filho ao lado do pai, porque fui criada apenas pela minha mãe - e sei como uma figura paterna faz falta.

Beijos, bonita :)

meus instantes e momentos disse...

voltando aqui, só para dar uma olhada nessa foto linda, e te desejar uma bela tarde.
Maurizio

Germano Xavier disse...

Passando e relembrando, Jaque.

Um carinho de terça-feira.
Continuemos...

Olavo disse...

Eu que adoro ser pai..jamais neguei ou negaria um filho..
beijão

Cadinho RoCo disse...

No ventre das contas alguém que vive na felicidade de não saber o que são os números.
Cadinho RoCo

Tainá :) disse...

Adorei suas palavras!

Beeeeeeijos ;*

Germano Xavier disse...

Enquanto não vem texto novo, deixo um abraço de quinta-feira.

Carinho, Jaque.
Continuemos...

Lizz Marcella disse...

Os que não aceitam a paternidade são aqueles que ainda não terminaram de crescer, na verdade eles têm medo.

Visitei e resolvi comentar,beijos

Letícia disse...

Você leu um texto que escrevi e disse ser a sua história. Digo o mesmo sobre o seu texto. Maternidade é a confusão que a gente acaba encontrando. Muitas mulheres pintam o quadro de uma forma e você pintou como eu o vi. Pés inchados, vontades e responsabilidade por viver.

Bjs, Jaque.