quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A hora.

Ela sentia tanta dor, ajoelhava-se no chão enquanto os olhos se encobriam de água. Nada podia fazer, a não ser viver daquela maneira. O médico a recomendou outra sessão de um tratamento de choque, que daria a ela mais uns meses de vida.
Ela recusou, preferia viver só mais uns dias, era difícil esperar por alguém que roubarua dela a vida e não a traria de volta. Com as mãos trêmulas, buscou apoio na bengala que usava já há alguns meses, colocou uma roupa simples, e passou a mão nos cabelos, que já não existia mais.
Trancou a porta da casa que morava há longos anos, e por alguns segundos se lembrou dos bons momentos que desfrutara ali, ao lado de amigos e amores. Embora fosse sozinha agora, jamais deixou de se divertir com diferentes companheiros. Desceu as escadas, até o pequeno jardim, e vagarosamente chegou à calçada, onde acenou para um táxi.
-Quer ajuda senhora?
-Não precisa não, basta um pouco de paciência e eu me encaixo.
-Dia quente hoje, né?
-Olha sinto tanto frio, até mesmo quando o sol chega aos 40 graus, mas me lembro o quanto eu gostava de dias assim. Sempre preferi o calor ao frio.
-Ahhh...No frio as pessoas saem menos.
-Saem menos e deixam de se divertir.
-Aonde vamos?
-Me deixe no Ibirapuera, preciso ir à casa de um velho amigo.
O diálogo acabou ali, e ela se virou para janela, para que pudesse olhar mais uma vez as pessoas e a paisagem. Quanto já tinha andado pelas largas ruas daquela cidade grande, e tida como tão perigosa. Ela nunca teve medo, nem receios, sempre viveu. Para memória trouxe ainda o dia em que conheceu Alberto, alto, de olhos verdes, e cabelos cor de caramelo encaracolado, tinha acabado de chegar, e não sabia tomar ônibus, ele a ajudou, depois disso não deixaram mais de se ver. Chegaram até a namorar, mas ela tinha tantos companheiros naqueles anos dourados, que ele não suportou. Era ciumento, queria que ela fosse só dele, chegou a convidá-la para que morassem juntos.
Ela sorriu, e achou que ele estava contando uma piada, ela morar com um homem, queria ser livre, conhecer pessoas, viajar. E não cuidar de homem e casa, ele insistiu mais algumas vezes, mandou algumas cartas com lindos poemas, e depois, cansado, foi cuidar da vida.
Alguns anos depois, ele se casou, e mandou um convite para ela, no verso estava escrito que a amava, e que se ela mudasse de idéia ele não casava. Ela nem sequer foi ao casamento, estava bebendo vinho naquela noite, com alguns amigos, e se esqueceu. Ficou ainda alguns anos sem saber dele, e com a mão no coração, nesse momento, ela se lembra da saudade que sentiu. Era tarde demais, os anos 70 haviam passado, nenhum amigo lhe restou, a não ser algumas dependências, da qual ela se curaria mais tarde.
- Deu trinta e nove reais senhora.
-Obrigada.- disse ela depois de pagar e abrir a porta do táxi.
-Se quiser posso vir busca-la, fique com meu telefone.
-Obrigada mais uma vez, se precisar eu ligo.
A passos curtos, e com um pouco de falta de ar, ela andava pelo Ibirapuera, lembrando das manifestações de paz, que havia promovido, e dos luais que sempre acabavam na delegacia. Eram tempos difíceis aqueles, perdeu alguns amigos inclusive, no âmago da ditadura militar.
Chegou até um sebo, grande, empanturrado de livros e Cds, os corredores pareciam sem fim, e o cheiro de velharia,a fez espirrar. Um jovem se aproximou dela, olhou a palidez de seu rosto, e gritou para seu avô, precisava de ajuda, uma senhora passava mal. Ao chegar perto da senhora, o avô do rapaz até assutou.
-Corra Léo, chame uma ambulância!
-Alberto, é você?
-Margarida?
-Sim...não precisa chamar ninguém, a minha hora chegou.
-Não, acalme-se, não quero que sinta dor.
-Não sinto mais nada, precisava apenas encontrar a única pessoa que me amou de verdade. Quem foi que disse que eu não estaria nos seus braços mais uma vez?- tentou esboçar um sorriso.
-Permaneceu em meu coração todos esses anos...- disse ele olhando-a.
Ela fechou os olhos, e com um leve sorriso no rosto, disse adeus a seus dois grandes amores, a vida e Alberto.

9 comentários:

Germano Xavier disse...

Estória marcada pelo abismo do orgulho e do amor.

Recompensa é a última visão do amor ou dor maior é?

Um carinho, Jaque.
Continuemos...

Letícia disse...

Eu sempre fico presa ao detalhes quando leio. E sempre que há bengalas e gente mais velha, penso na vida inteira. Sofro desse mal. Mas o texto tá muito bom, Jaque. E pensei em outro fim e você veio com outro fim e ficou o melhor final.

Bjs.

D.Ramírez disse...

Uma história emocionante, de uma sutileza ..ah adorável. Você escreve maravilhosamente bem, prende, envolve, tem começo, meio e fim, fascinate!
Besos

Germano Xavier disse...

Acho que é dor maior.
Mas também recompensa.

Quiçá os dois.
Ou nenhum.

Continuemos, Jaque.

Pia Fraus disse...

fica uma única pergunta do que leio por aqui: quando isso vai tomar corpo de papel?

bjos

ps: obrigada pela visita e sobretudo por relfetir comigo...

Nucifera disse...

Me deu até uma dor...

Um nó na garganta... tudo o que leio aqui me sufoca. Lindo. Triste. Sutil. Vívido.

besos

Flávia B. disse...

Sabe que eu sempre me imaginei morrendo assim? Não que eu queira morrer, pelo contrário. Mas quando essa hora chegar, quero mesmo que seja nos braços de quem eu amo, e só dele.

Beijos!

Jaque Lima disse...

Germano, querido.
Acho que amor é recompensa, mas ás vezes dói.

Beijos.

Bill Stein Husenbar disse...

Bonita história.

ReVoltarei a esta casa de contos.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/