sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A música.

Tomava o café, ali perto da casa dela. As paredes brancas, e a porta vermelha chamavam a atenção. Ela tinha escolhido, tudo o que estava ali, naquela casa, que era só dela. Pensava ser o mundo mais próximo do que ela queria. As fotos espalhadas pela parede, e pelas mesas redondas, a cortina quase transparente, os tacos no chão que cismavam fazer barulho quando ela andava. Ela sorria ao olhar para a casa de número 13, na rua das Palmeiras, com portão baixo, e muros cobertos de tijolinhos à vista. Ela que promovia eventos, conhecia tantas pessoas, saia todas as noites, menos aos domingos, quando ela gostava de ficar em casa, lendo, vendo tevê, ouvindo samba, olhando para os cantos. Precisava tanto descansar, tirar férias, mas não queria sair de casa, nem chamar os mais próximos para reuniões ou jantares. Precisava se encontrar sozinha, sem conselhos, sem risadas que não fossem as dela. Os cabelos ondulados, e sempre preso, ainda cheiravam o banho que tomou antes de sair de casa. Deixou o dinheiro do café, do lado da mesa, não cumprimentou ninguém, e saiu, caminhando pelas ruas, que ela conhecia tanto, e tão de perto. O cheiro de maça, que aquele bairro tinha, as pessoas paradas no portão, era tudo familiar. Ela observava silenciosa, cada passo que não fosse o seu, gostava de pessoas, mas não mantinha proximidades, era sozinha por opção. Tinha receio de se envolver, se decepcionar, criar casos, enfrentar brigas, conviver com mentiras. Para ela, que não precisava de ajuda, tudo estava bem até ali. Ao chegar no escritório de paredes brancas, e gente sem graça, a qual ela se animava de mentira, pegou um bilhete que dizia apenas: Mensagem de Amor. Perguntou quem havia deixado aquele papel em sua mesa, mas ninguém sabia ao certo. Olhou mais uma vez, as curvas feitas a mão, o jeito como foram colocadas as palavras, precisava saber.
-Hoje temos que organizar uma festa particular, de um tal de Caio Mendes, parece que é um jovem rico, que quer animar as mulheres, quer que tenha desfile, samba e frases jogadas na festa.
Ela respondeu que sim com a cabeça. Faria isso, porque era o trabalho dela, e mais uma vez teria que ficar fora de casa. Depois de trabalhar o dia todo, tomou um banho, ali mesmo no escritório opaco, deixou a água quente tocar seu corpo, e abaixou a cabeça, precisava de um tempo, de toda aquela coisa, de ser de mentira.
A festa estava cheia de mulheres, conhecidas e anônimas, mas todas cheias de classe, e beleza atraente. Ela vestia um vestido vermelho de seda, maquiagem leve, e rádio comunicador nas mãos. Não gostava que nada desse errado, era profissional e boa no que fazia, embora estivesse sem grandes ânimos pra tudo aquilo.
- Por favor, preciso de um minuto de atenção de todos vocês. Sou Caio Mendes, não sei se todos sabem, mas enfim, vocês estão em minha casa, e eu preciso que vão embora. Essa festa foi só um motivo do qual eu precisava, esperei por vários anos, alguém que só encontrei agora. Sim, é isso mesmo adeus a todos, e obrigado por se divertirem as minhas custas.
Foi assim, curto e grosso, ela espantada abaixou a cabeça, e apoiou as mãos na testa, como se aquilo tudo fosse irreal. Aquele homem, loiro, de olhos esverdeados, alto, inteligente, desejado. Como podia ser tão indiscreto, e insensível, e além de tudo dar tanto trabalho sem motivo? Não podia ter chamado a tal moça pra jantar, ligar, mandar flores, parecia tão simples.
-Oi- disse ele.
-Olá, já estou me retirando, amanhã o pessoal aparece para limpar sua casa.-disse ela, seca.
-Não se lembra de mim? O caio, aquele gordinho, perturbador que implicava com você até a quarta série?
-Estou cansada, não preciso de um doido inventando histórias.
-Claro que se lembra, você me odiava, porque eu te chamava de Maria-Chorona.
-Acho que me lembro sim, você me traumatizou, tanto que hoje eu não choro mais.
-Que bom, que te fiz um bem. Te procurei por tanto tempo, a última vez que te vi, foi quando tínhamos 16 anos, no show de Marcelo, nem me lembro onde.
-Pois é.
-Antes que você vá embora, preciso que me conceda uma dança.
Sem que ela respondesse, ele deu sinal para a banda que estava no canto do jardim, e então começaram a tocar Mensagem de amor. Ela logo entendeu de quem era o bilhete, que tanto a intrigou pela manhã. Ele deslizava as mãos nas costas dela, e a segurava, sem que ela pudesse escapar. Ela encostou o rosto nos ombros dele, sem entender, porque ela, ele podia escolher tantas ali, ou em outro lugar.
-Eu me apaixonei por você, desde que te vi há 15 anos atrás. Quis tanto te encontrar em qualquer canto, fui até sua casa antiga, mas você já não estava mais lá. Outro dia te vi saindo de uma casa de porta vermelha, parei ali, e desejei que fosse minha, nem que fosse só por uma dança. Nossa música, foi a que o Marcelo tocou no momento em que te vi.
-Fico feliz pelo seu interesse, mas entenda, os tempos são outros, eu não tenho mais nove nem 16 anos, não procuro relações mais estreitas. Gosto da minha vida como ela é.
-Não quero que você mude nada, quero apenas que me dê uma chance, de te conhecer, de perceber que eu estava certo.
Ela o empurrou, saiu correndo, como se precisasse fugir, dele, ou dela mesma. Parou na porta do carro, ajoelhou e chorou. Não deixava ninguém chegar perto dela, ela se assustava, porque gostava do que era. Era o que pensava, mas nem sempre o que sentia. Desejou que ele viesse atrás dela, e sem dizer nada a beijasse. Ele não foi, ela esperou até o amanhecer, foi pra casa. Ao abrir a porta, tirou os sapatos, que já apertavam os pés, ligou o rádio, e sentou no corredor. A música deles, tocava e embalava as lembranças que ela não guardava, Mensagem de Amor, foi a música que ele mandou tocar todos os dias pra ela, durante 30 anos, no mesmo horário. Ela permaneceu ali, naquela casa branca, de portas vermelhas, Ele também ficou no mesmo lugar. Em todos esses anos, ouviam a música deles, pensavam um no outro. Até que um dia, cansado de desejar, foi a procura dela. E ela estava ali ao lado da casa de portas vermelhas, tomando café, quando viu um senhor se aproximar, e olhar para o portão da casa. Assustada, ela correu, saber o que queria ali. Quando ele se virou, nada disse, apenas a beijou.

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Os livros na estante já não tem mais tanta importância /Do muito que eu li, do pouco que eu sei/Nada me resta/A não ser a vontade de te encontrar/O motivo eu já nem sei/Nem que seja só para estar ao seu lado/Só pra ler no seu rosto/Uma mensagem de amor/A noite eu me deito,/Então escuto a mensagem no ar/Tambores rufando/Eu já não tenho nada pra te dar/A não ser a vontade de te encontrar/O motivo eu já nem sei/Nem que seja só para estar ao seu lado/Só pra ler no seu rosto/Uma mensagem de amor/No céu estrelado eu me perco/Com os pés na terra/Vagando entre os astros/Nada me move nem me faz parar/A não ser a vontade de te encontrar/O motivo eu já nem sei/Nem que seja só para estar ao seu lado/Só pra ler no seu rosto/Uma mensagem de amor.
(Mensagem de Amor)

9 comentários:

Germano Xavier disse...

Um contenda de si, feita de sis.
Quando o humano briga consigo mesmo, por querer ser e não poder ser ou ter medo de.

Um embate, um levante.
A moça que ama e o rapaz que ama.
E o amor difícil e preso.

E você muda teu jeito de escrever como quem troca de roupa, Jaque.

Um carinho.
Continuemos...

Pia Fraus disse...

Jaque.... você entendeu o que quis dizer da investigação e da liberdade... isso faz toda a diferença.

D.Ramírez disse...

conhecndo, gostando e ficando..voltarei;)

Camilla Tebet disse...

QUe história triste. Fiquei triste. Bela narrativa e final inesperado. mas triste. 30 anos. Que bom lembrar dessa música..
o motivo eu já nem sei.

alexandre guardiola disse...

gostei de mais desse teu texto.
jóia,
um abraço.

Nucifera disse...

Nossa... Lindo! Caramba!!! O pior é que me vi ali, fugindo de relações estreitas, com medo da proximidade, sem me deixar conhecer... caramba... senti um frio na espinha lendo...

sem mais palavras pra você guria...
aceite minha reverencia e um aceno de mão...

beijos

Letícia disse...

Conheço essa música, Jaque. Mensagem de Amor. Acho que ouvi na voz da Marina. Não importa. E li seu texto vendo diferenças. Ausência de pontos e palavras largas que aumentam a vontade de ler. E acredito em amor assim. Sou clichê.

E não esqueço de vir aqui.

Bjs.

. fina flor . disse...

a música veio a calhar, ficou ótima com o post:o)

beijos, querida e obrigada por sua singela visita, volte sempre que quiser

MM.

Germano Xavier disse...

re.
lem.
bran.
do.
o.
tex.
to.

um. carinho. Jaque.
Con.ti.nu.e.mos...