quinta-feira, 13 de novembro de 2008

a Volta

começava a se vestir quando o dia fugia. trabalhava a noite. com roupas curtas. maquiagem tonante. e clientes fumegantes. parte dessa escolha tinha sido a necessidade. mas ela gostava. porque se sentia corajosa. forte. e dona de si mesma. não tinha família. desde o dia em que se tornara prostituta. e também não tinha horário. nem regras. mas precisava sobreviver. e vendia o corpo. as camas eram sujas. os carros apertados. as esquinas perigosas. mas ela era de ferro. quando sentia a luz quente no corpo. já o curvava. e debruçava na janela.
-Quanto é?
-Quanto você acha que vale?
-Olha acho que prazer deveria ser gratuito. mas pra você eu dou quarenta.
-Pra me possuir é cem.
-Nossa delícia...
-Vai ser inesquecível. prometo.
ele destravou a porta. e ela começou o trabalho. ali mesmo. enquanto o sinal fechava. as pessoas ao lado. não incomodavam a manifestação dela. era apenas uma profissional. que dormia de dia. fazia aquilo por si mesma. mas até quando. seguraria a barra. de ser sozinha. não tinha nem confidentes. tampouco amigos. lhe bastava os vizinhos. intrometidos. qua tanto comentavam a vida dela. naquela noite. ela foi embora. antes do sol raiar. estava incomodada. foi andando. e deslizando no asfalto imundo da cidade grande. os carros pareciam holofotes. mas ela continuava. não mudava o passo que era lento. e fazia barulho. a chuva começou a molhar os curtos cabelos negros. e ainda borrar a maquiagem dela. que continuava. sem olhar pra trás. e nem encarar ninguém de frente. o corpo esguio. girava ao som de um trompete imaginário. e ela erguia os braços.
-Cansei de ser herói. cansei da noite. cansei de mim.
foi assim que chegou em casa. morta. por fora. e por dentro. queria ser fraca por um momento. e desistir de tudo. voltar pra casa. pedir desculpas. se redmir da vergonha. tinha pensado por tantos anos que estava certa. mas percebeu que ser de qualquer um. se sujeitar a qualquer canto. não deveria ser assim. precisava de atenção. de jantares. de cinema. de beijos furtivos. e sorrisos abertos. queria alguém que fosse só dela. estava tão cheia de lamentações. quando começou a arrumar as malas. não voltaria pra imperdoável esquina da solidão. seria seguidora de um Deus. mesmo que não acreditasse em nada. seria boa como sua mãe. que sabia de tudo. mesmo sem ter sequer o ensino fundamental completo. queria conhecer todos os cantos. não seria mais escolhida pelas luzes da noite. agora era hora de voltar. pegou um ônibus que rumava para o interior. e foi olhando pela janela. tudo o que estava deixando. ao chegar no seu lugar. olhou em volta. tudo estava tão igual. as mesmas pessoas. e outras tantas. foi andando. devagar. todos foficavam. mas ela não se importava com isso. continuava. ao chegar em sua casa. viu sua mãe no portão. como se soubesse que ela chegaria. o sorriso daquela velha senhora. de cabelos negros. misturados com os brancos. se abriu. e ela correu pra receber a filha.
-Senti tanta saudade. te esperei por todos estes anos. aqui nesse portão.
-...- ela preferiu não dizer nada. os olhos cheios de água. lambusavam os ombros da mãe.
ao pisar em casa. sentiu o cheiro que nunca havia esquecido. os quadros estavam no mesmo lugar. assim como o tapete marrom e palha. e o sofá era aquele marrom que ela viu seu pai carregar um dia.
-Sente-se. vou chamar o papai. ele vai ficar feliz também.
ela não tinha muita certeza sobre isso. seu pai jamais a aceitaria de volta. mas talvez se ela dissesse arrependida. ou explicasse que precisava de um tempo. poderia ser entendida. por ele. que era um senhor alto. com pernas fias. e uma barriga saliente. os cabelos brancos. e a buchecha vermelha. chegou a porta. olhou-a. como se estivesse inconformado. jamais esperaria ela ali. no seu sofá. ficou por alguns segundos parado. tudo estava em silêncio. a mãe na expectativa. assim como ela. o que ele faria.
-Eu voltei. porque...
-Não precisa me dizer nada. você é minha família. e te esperei todos esse anos. que entrasse por aquela porta. e eu pudesse alisar seus cabelos mais uma vez. fui muito duro com você. e deixa tudo isso pra lá. vem vamos almoçar.
foi assim que ela perdeu a coragem. e voltou. desistiu. resistiu. mudou de vida.

6 comentários:

Vivian disse...

...olá linda escritora!

você retratou fielmente
o que acontece com tantas
meninas sonhadoras por aqui
na cidade grande.

embora se iludam com o dinheiro
fácil,
a raiz da família acaba vencendo,
e elas então voltam a viver de verdade.

bjus, menina!

Igo Araujo disse...

uau!
q história! não é todo mundo q resiste a essa vida. não é todo mundo q resiste a essa mudança de vida... e nem é todo pai q aceita uma filha "da vida" de volta! mais pessoas poderiam ser boas como as do seu conto!

bjs

Germano Xavier disse...

mudança. arrependimento. que será? que aconteceu. a alma desanimou. cansou. não deu. família. lar. que será. que aconteceu.

Um comentário do jeito Jaque de escrever.

Um carinho.
Continuemos...

Salve Jorge disse...

Hoje eu falei de mudança
De gente que não cansa
Mas a vida muito mais avança
A cada volta
Do que se solta
Enquanto balança
Então há aqueles que entram na dança
E os que não
Cientes do chão
Acham solução
E vão...

Letícia disse...

E eu vivo sumindo. Mas volto e sempre observei seu modo de escrever. Sempre em pontos e finalizando e recomeçando. É original.

Bjs.

Keke disse...

Ola. muito lindo tudo isso bela histótia, ótima escritora, mas o que me deixou curiosa foi a maquiagem "tonante", sendo umnome prório, o que pode me explicar sobre o nome "tonante.
Bjus Keithe Tonante