terça-feira, 22 de julho de 2008

Sou


sou ausente. desconheço tempo. e lugar. já perdi apostas. amigos. amores. confiança. cigarros. e desenhei nas paredes. rabisquei folhas de papel. inventei seres medonhos. convidei a solidão. abri as portas para o vazio. guardei meu coração na gaveta do criado mudo. dispensei os sentidos. escrevi cartas. encontrei passageiros. sentei na mureta de cimento gelado. me agasalhei numa tarde ensolarada. perdi o juízo. e corri. o corpo suado. as mãos fechadas. olhar embriagado. pés descalços.
sou só.
sou com alguém.
sou pó.
sou de ninguém.
sou nó.
sou com desdém.
sou um ser. que busca a animação inanimada. a limitação ilimitada. a vida desennfreada. as mãos desamarradas. o olhar esculhambado. um quarto abandonado. um silêncio abafado. uma companhia sincera.
já não sei. talvez nunca tenha sabido. o desconhecido alerta chegada. minha mente emaranhada. meus retrados antigos. os livros esquecidos. meu amanhã despontado.
e sou o que mais ninguém é. ou o que todos são. não tenho certeza. a parede amarela. me lembra um sorriso. a taça de vinho me lembra uma noite. e o espelho me mostra o que nem mesmo eu sei o que é.

4 comentários:

Camilla Tebet disse...

"e sou o que mais ninguém é. ou o que todos são.". Isso é poesia consciente. A consciencia de ser única, mas resultado de uma mistura de tudo e todos que te rodeiam. Já perdeu, já se perdeu e continua sendo o ausente e o presente. Serão escolhas? Acho que não.
belíssimo texto.

Dani disse...

Uma auto-definição e tanto.
Grande texto.

A Senhora disse...

Tenho saudades dessa fase "louca" da minha vida... Tão única e tão muitas. Sensibilidade à flor-da-pele e sem ter quem a entenda.
Linda!

Alexandre Henrique disse...

Dança existencial, alma livremente condensada entre a sala de estar, o hábito de ser das memórias, e o reflexo perplexo do espelho. É um texto que fala de um quarto abandonado, ou seja, o local mais privado possível até a companhia mais sincera. No meio de tantas coisas que formam nossa existência, somos possivelmente o sujeito mais oculto entre os outros que formam a nossa existência. Belo texto, misterioso e sincero.